Ailleurs, bien loin d’ici! Trop tard! Jamais peut-être!
Car j’ignore ou tu fuis, tu ne sais ou jê vais,
O toi que j’eusse aimeé, ô toi qui le savais.
(Charles Baudelaire)
Duas flores separadas no tempo e no espaço sonham uma com a outra. Inebriadas com a possibilidade de seu encontro, alimentam fantasias de que suas aventuras e desventuras (todas elas fictícias) serão ainda cantadas por poetas através dos séculos...
Mas como tudo o que é bom um dia acaba, eis que o sonho cessa por uma desgraça do destino. Revela-se o espelho que as encantavam uma à outra com a projeção de si mesmas. O espelho, no entanto, se apresenta tarde demais. Quebra-se abruptamente em milhares de estilhaços, deixando nossas flores sozinhas e desamparadas, cada uma em seu canteiro.
De um dos lados daquele mundo, agora em cacos, uma de nossas flores foi acordada. Seu grito irrompeu na noite e ela se deparou com a dura solidão da dor que era só sua. Não havia outros por perto, nem tampouco ouvidos para atendê-la.
O cheiro ali era insuportável. Rosas... as flores do silêncio. Mas seu odor apenas engana. Não há rosas ali, nada ali é vermelho como a paixão. Àquelas horas, o tom amarelado do tímido luar que encontrara no céu remete mais à “cor do cobre”. Na dor e solidão seu gosto é férreo, como sangue e bile. Os ecos de seus gritos traziam a esperança de algum encontro, mas desaparecem sem trazer novo ânimo. Ninguém atendeu. Novamente, o doloroso silêncio preenche todos os espaços, cercando a flor que solitariamente se contorce na noite interminável. Mas ela não é qualquer uma, ela é forte, do tipo que floresce no inverno ou no outono e em climas subtropicais.
Do outro lado, sem jamais ter dormido e ainda sem ação, nossa outra flor jaz em seu leito, misto de vaso e vazio, no qual o "nada" se torna tudo o que ela tem. Outra flor solitária em meio a um jardim primaveril se contorcendo, também, num árido espaço de sua propriedade, no qual nada frui. Nenhum alento é recolhido para si, que definha em silêncio. Eloqüente silenciar... Preenchido, no entanto, com a dor da fome que não é alimentar. O silêncio dá margem à sua imaginação, na qual o nada pode ser alguma coisa. Sim, não, talvez, suma, desapareça, morra...
Lembra-se um poema bem tosco de um autor nunca lido, talvez sequer nascido e, dependendo do caso, merecidamente esquecido (ou quase):
Seu dilema, incrivelmente, era esse. Tudo ou nada... De forma radical, trilhando seus caminhos, o sofrimento faz parte (positiva para uns, inexorável para outros) da existência da flor que não dormiria àquela noite, que era eterna vigília, não exatamente um sono, também não um sonho.
A “doença”, contudo, é uma e a mesma para ambas. O quanto poderão suportar a doença do silêncio que gritos não conseguem superar? O nada do outro lado... Quanto vale a promessa sempre ideal e sem realização de um encontro e da entrega aos delírios da febre que as acomete? Preencher o vazio ao qual somente se acresce o “nada”, antes que o derradeiro fim as alcance... Quanto tempo mais carregar esse pesado fardo até que o tempo e o esquecimento cumpram com seu dever e elas possam, afinal, sorrir novamente?
Sua tristeza é original... Ela não é triste. Seria aquela “boa” melancolia? Aquela que dizem os experts seria fonte de inspiração para as mentes que se lançam inteiramente aos devaneios da razão filosófica e dos mais sérios pensadores? “Os ingleses, com efeito”, dizia Voltaire, “chamam a essa enfermidade Spleen, palavra que significa baço”. Nossas flores ainda sofrem dessa afecção do baço... As flores inglesas têm o spleen e digladiam-se umas às outras, por vezes até se matam. Às vezes se amam... Com (e por) humor.
Trocadilho ou não, o humor também remete aos quatro humores que, diziam os antigos, seriam o sangüíneo, o melancólico, o colérico e o fleumático. Secretada pelo baço, por influência de Saturno, a bile negra do melancólico poderia derrubar até mesmo os mais fortes, num piscar de olhos. Assim, o silêncio que compartilham entre si as torna dispépticas, afeta seu corpo e corrói suas almas.
Mas, como trato de flores, digo logo: narcisos são flores auto-suficientes. Porém, são flores de Saturno.
Mas como tudo o que é bom um dia acaba, eis que o sonho cessa por uma desgraça do destino. Revela-se o espelho que as encantavam uma à outra com a projeção de si mesmas. O espelho, no entanto, se apresenta tarde demais. Quebra-se abruptamente em milhares de estilhaços, deixando nossas flores sozinhas e desamparadas, cada uma em seu canteiro.
De um dos lados daquele mundo, agora em cacos, uma de nossas flores foi acordada. Seu grito irrompeu na noite e ela se deparou com a dura solidão da dor que era só sua. Não havia outros por perto, nem tampouco ouvidos para atendê-la.
O cheiro ali era insuportável. Rosas... as flores do silêncio. Mas seu odor apenas engana. Não há rosas ali, nada ali é vermelho como a paixão. Àquelas horas, o tom amarelado do tímido luar que encontrara no céu remete mais à “cor do cobre”. Na dor e solidão seu gosto é férreo, como sangue e bile. Os ecos de seus gritos traziam a esperança de algum encontro, mas desaparecem sem trazer novo ânimo. Ninguém atendeu. Novamente, o doloroso silêncio preenche todos os espaços, cercando a flor que solitariamente se contorce na noite interminável. Mas ela não é qualquer uma, ela é forte, do tipo que floresce no inverno ou no outono e em climas subtropicais.
Do outro lado, sem jamais ter dormido e ainda sem ação, nossa outra flor jaz em seu leito, misto de vaso e vazio, no qual o "nada" se torna tudo o que ela tem. Outra flor solitária em meio a um jardim primaveril se contorcendo, também, num árido espaço de sua propriedade, no qual nada frui. Nenhum alento é recolhido para si, que definha em silêncio. Eloqüente silenciar... Preenchido, no entanto, com a dor da fome que não é alimentar. O silêncio dá margem à sua imaginação, na qual o nada pode ser alguma coisa. Sim, não, talvez, suma, desapareça, morra...
Lembra-se um poema bem tosco de um autor nunca lido, talvez sequer nascido e, dependendo do caso, merecidamente esquecido (ou quase):
“Se o tudo tudo tem, tem o nada.
Se o nada nada tem, tudo falta.
Se tudo é tudo, é, também, nada.
E assim caminhamos...
Esmaecendo...
Nos esvaindo...
Sem termos sido plenamente nada...
Acreditando que somos efetivamente tudo”.
Se o nada nada tem, tudo falta.
Se tudo é tudo, é, também, nada.
E assim caminhamos...
Esmaecendo...
Nos esvaindo...
Sem termos sido plenamente nada...
Acreditando que somos efetivamente tudo”.
Seu dilema, incrivelmente, era esse. Tudo ou nada... De forma radical, trilhando seus caminhos, o sofrimento faz parte (positiva para uns, inexorável para outros) da existência da flor que não dormiria àquela noite, que era eterna vigília, não exatamente um sono, também não um sonho.
A “doença”, contudo, é uma e a mesma para ambas. O quanto poderão suportar a doença do silêncio que gritos não conseguem superar? O nada do outro lado... Quanto vale a promessa sempre ideal e sem realização de um encontro e da entrega aos delírios da febre que as acomete? Preencher o vazio ao qual somente se acresce o “nada”, antes que o derradeiro fim as alcance... Quanto tempo mais carregar esse pesado fardo até que o tempo e o esquecimento cumpram com seu dever e elas possam, afinal, sorrir novamente?
Sua tristeza é original... Ela não é triste. Seria aquela “boa” melancolia? Aquela que dizem os experts seria fonte de inspiração para as mentes que se lançam inteiramente aos devaneios da razão filosófica e dos mais sérios pensadores? “Os ingleses, com efeito”, dizia Voltaire, “chamam a essa enfermidade Spleen, palavra que significa baço”. Nossas flores ainda sofrem dessa afecção do baço... As flores inglesas têm o spleen e digladiam-se umas às outras, por vezes até se matam. Às vezes se amam... Com (e por) humor.
Trocadilho ou não, o humor também remete aos quatro humores que, diziam os antigos, seriam o sangüíneo, o melancólico, o colérico e o fleumático. Secretada pelo baço, por influência de Saturno, a bile negra do melancólico poderia derrubar até mesmo os mais fortes, num piscar de olhos. Assim, o silêncio que compartilham entre si as torna dispépticas, afeta seu corpo e corrói suas almas.
Mas, como trato de flores, digo logo: narcisos são flores auto-suficientes. Porém, são flores de Saturno.