domingo, 6 de setembro de 2009

A lágrima de Demódoco


- “Evoé!”, louvava Demódoco. Embriagados, todos aplaudiram. Ele cantava sobre a curiosa, traiçoeira e fria noite daquelas paragens a abrigar navegantes e andarilhos até que, desviado de sua canção, trouxe aos viandantes um abrupto silenciar. Semblante de estupefação... Como de quem ouvia algo mais do que inusitado. Mal sabiam seus ouvintes e espectadores que ele ouvia "o" anunciado. A musa dizia ao aedo, e a ele apenas, o que cantar. Mas, pela primeira vez, Demódoco silenciou após sua inspiração.

Depois desse inquietante silêncio, mais do que impremeditado, Demódoco percebeu que algo residia para além do luar que os encobria sob a fina bruma de outono. Ninguém percebeu, mas o aedo sabia que a bela imortal ao seu lado dançava, cantava e encantava. Rodopiava com lira em mãos enquanto o velho Demódoco apenas esperava. Respirava fundo, ainda em silêncio, em uma longa pausa que perturbava seu público.

Nos olhinhos deliciosamente maliciosos da musa, fantasiava Demódoco, anunciava-se algo além do olhar, e isso aguçava a imaginação do velho homem. Não seria a primeira vez.

Seu público ainda aguardava os ensejos, desejos e segredos, mundanos e divinos, que iluminariam seus olhares na noite escura. Olhos seus o ancião não possuia, pois cego de nascença. Mas os dos outros já encantara muitas vezes. Seus próprios olhos, sempre cobertos por pedaço maltrapilho de pano, lhe serviam como espelhos para sua mente, a refletir a inspiração do que não via, apenas ouvia, soprado em seus ouvidos pela bela musa. Contudo, longe dos inspiradores ares das divindades, para o velho Demódoco havia trevas apenas.

Não ficava claro aos ouvintes o que o ancião esperava. Mas ele ansiava por palavras que quebrassem o silêncio e a negritude que sucedeu à última inspiração:

- "Há mais... Tem de haver!", exasperava em ansiedade.

Seus ouvintes não percebiam o porquê de sua demora em retomar seu canto. A verdade que lhes escapava é que ele tão somente aguardava. Não mais por palavras de inspiração, mas de redenção. Para cantar aos homens a visão daquela que tudo sabe e tudo vê, poder respirar um sopro de vida e aliviar-se. Esperava por algo novo e, de novo, desesperou: as palavras não vieram.

Nada mais escutaria da musa, porém sabia o que fazer, lançando ao mundo as palavras que cantavam sombras de promessas nunca feitas; de encontros jamais cumpridos; da perda do que nunca se teve. O ancião nada mais ouvia, todavia cantava seu poema novamente. E de novo e de novo. Sempre retornando ao momento exato no qual sua inspiração cessara, instalando novamente o incômodo silêncio e a angústia da espera.

Seu público esboçou vaias, mas estas quase não lhe atingiram, pois no íntimo de seu mais profundo e sincero desejo, sua concentração fixava-se na espera. Era como se a tarefa do aedo não mais existisse em meio àqueles homens.

Mas a sina e a tragédia do rapsodo é cantar. Não podia escolher; não poderia esconder. E, assim, revelou a todos o que ouvira, e relutantemente protelara dizer. Tratava-se de seu próprio fim.

Narrando palavras que não eram suas, mas a seu respeito, cantou o que ouvira, até seu silêncio. A verdade da musa dizia respeito ao fim dos aedos, que seriam premiados com longevidade sobrehumana, por seus préstimos zelosos e apaixonados. Daí para frente já não escutaria mais nada. Para ele, as inspirações das musas se tornariam apenas uma lembrança, nostalgia de uma relação que desapareceria para sempre.

Suas últimas palavras rezavam também o fim da verdade, que morrera na lágrima do príncipe visitante dias atrás ali mesmo naquela corte. As lágrimas daquele homem foram um enigma para Demódoco, pelo menos até aquele instante, quando subtamente compreendeu, narrando a si mesmo como um ser passado, cuja existência deixava de fazer sentido naquele mundo. Seu lugar agora estava vago. Tornara-se passado.

Seu tempo como aedo terminara ali, naquela praça. A mesma praça na qual o grande herói Ulisses, sem que soubessem quem ele era, ouvira o anúncio de suas façanhas, a estratégia do Cavalo e sua morte na guerra contra Ílion. Com lágrimas em profusão reagira ao arrebatador anúncio de sua morte, experiência ouvida, sentida e vivida, mas de modo algum comunicável.

Demódoco compreendera finalmente. Seu público, entretanto, já com sono e sem tirar prazer daquela experiência - o que fez vergonha a Alcínoo, senhor da casa e rei dos Feácios - demandava por uma "saideira". Demódoco, então, declamou uma última poesia, chamada "Os aedos não choram".

Há apenas notícia desta estória, jamais escrita e há muito perdida, sem se saber ao certo seus versos. Diz a lenda que sua conclusão resumia-se ao seguinte:

- "Não, os aedos não choram. Deixam as lágrimas aos heróis do passado... E do presente".

Resignado, ao final de seu poema Demódoco verteu uma lágrima apenas, que se perdeu em meio às bandagens que envolviam seus olhos.

Assim, à última verdade ouvida e cantada, seguiu-se a primeira invenção de um homem que já não seria mais inspirado. Demódoco teria, então, baixado a cabeça por um instante tão breve que quase ninguém teria percebido sua vergonha.  Há quem diga que ele teria, já descrente e desesperado, pensado sentir o perfume da musa, apenas para se frustrar mais uma vez diante dos dissabores de sua imaginação. Rapidamente, dizem, ele teria levantado a cabeça e prosseguido com o fim da peça, dizendo ser aquela a última vez que diria algo a respeito dos rapsodos, uma vez que aos aedos caberia apenas sentir e cantar as agruras e aventuras dos heróis. Quanto às lágrimas, dizia ele:

- "Que os heróis façam bom uso".

Encerrou sua apresentação, seguida por pálidos aplausos, e se recolheu sozinho em um canto só dele. Suas palavras se tornaram apenas suas e de súbito seus serviços foram relegados ao passado. Não se tem mais notícias dele, senão que teria deixado a Feácia e vagado como andarilho apátrida.

Diz-se que, muitos anos após o desaparecimento de Demódoco, um homem nascido em Helicarnasso, mas que se conheceu por ser "de Túrio", apareceu sob a figura de um viajante em idade relativamente avançada. Não há palavra que confirme quem foi ele, apenas as que constam nas páginas de suas Historias. Porém, pouco crédito lhe era dado. Diziam ser um bufão a vagar pelos mais recônditos rincões do mundo conhecido a contar o que via e ouvia acerca do que acontecera no mundo. Era, diria alguém maldosamente, um louco que pregava ter a preferência de uma musa, a quem honraria com seus textos, cuidadosamente escritos sob sua assinatura. Uma tentativa de atingir a imortalidade não apenas dos feitos narrados, mas a de seu próprio nome.

Não mais cantadas, mas contadas e escritas, as "verdades" nestas histórias tentavam honrar aos homens, não mais às deusas, mas clamavam por sua atenção, quem sabe até mesmo sua inspiração. Por isso escreviam, para preservar seus contos da obliteração do tempo e do esquecimento. Talvez assim, em algum tempo e lugar, as musas os reconhecessem por seus préstimos e os premiassem, como fizeram com Demódoco.

Aos homens, os quais a verdade cantada pelos aedos serviram por tanto tempo, tais histórias significavam pouco. Suas verdades eram já passageiras e temporais; "sempre contemporâneas", disse um dos desafetos do viajante narrador/escritor.

A verdade não viria mais das deusas eternas ao encontro dos mortais, intermediada pelos poetas. Seria, desde então, invenção dos mesmos lançada  às alturas na tentativa de atingir os olhos e ouvidos das imortais, já há muito esquecidas desse mesmo mundo. Essa tradição, de desespero e desamparo, dos gritos aos céus, desalento dos que buscam restabelecer contato, ainda promove a escrita e nela se pauta. É só o que lhes resta. Sua verdade é seu último alento.

Porém, continua significando pouco aos homens. Pelo menos àqueles que não as escrevem, que delas independem, que não confiam sua vida aos seus textos, ou se deixam confundir com os mesmos. Ouvi-las perdeu sentido; lê-las tornou-se atividade fastidiosa e para poucos, isto é, para os que ainda se aprazem com seus textos.

As musas que perseguem em sua milenar tarefa, permanecem, entretanto, quietas desde o anúncio ouvido por Demódoco. Mas a esperança de seu retorno, como diz o adágio, parece ser ainda a última que morre.

1 comentários:

  1. Mestre, este é um texto que merece uma atenção especial. Belíssimo!
    O ofício, o poder do silêncio, a concepção grega de História...enfim, tudo. O momento aqui é de perplexidade. Não sei se seria ousadia, mas sugeriria este texto nas aulas. Seria um poético apoio.
    Muito bom!

    F.M.

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