Meu velho pai dizia que somos nós mesmos quem criamos nossas próprias verdades. Costumava comentar que o fazemos para darmos sentido àquilo que não compreendemos, pois nosso verdadeiro prazer reside na compreensão. “Somos as criaturas mais vaidosas do planeta”, dizia ele. “A única coisa de que gostamos é de nos sentir inteligentes. Como não somos nada além de um monte de “Homo Narcisicus”, ele costumava brincar, “inventamos nossas verdades para ficarmos de bem conosco e com nosso ego lá no alto”.
Eu não entendia bem sua fala. Ele bebia demais às vezes. Mas ficava muito risonho, muito brincalhão, nunca ficara agressivo. Dizia que a ignorância era minha bênção em meio a tantos intelectos e intelectuais. Meu semblante sério era algo digno de piada. Mas pai é pai. E, com paciência de Jó, ele tentava me explicar que aquilo era só bate-papo, que não era importante, senão para uma meia-dúzia. Era tudo uma piada ou, como ele gostava de dizer, “um chiste”.
Um dia ele me parou com olhar atônito e não sorria mais.
- “Somos paradoxos ambulantes”, ele disse. “E, no entanto, não somos nada além do que dizemos ser e isso muda todos os dias”.
Eu tinha 18 anos e retrucava que não estava entendendo nada daquilo, mas, no fundo, já suspeitava para onde a prosa caminhava. Seus últimos exames médicos diziam que ele perdia rapidamente a visão, sem qualquer possibilidade de tratamento.
Dia a dia ele entristecia. Dizia que não se podia confiar em ninguém antes de confiar em si mesmo. Que o resto viria com o tempo e que eu devia ter senso de humor, sempre. Não levar nada a sério demais, nem a ele e nem a mim mesmo.
Eu perguntava se aquilo não era um contra-senso. E ele dizia apenas: “somos paradoxos ambulantes, ainda que tentemos fingir não o ser”.
- “A vida é uma comédia solitária, filho. Ria muito, o mais que puder. Ria de tudo, aproveite, mas saiba que teu riso será sempre só teu e de mais ninguém - assim como o de cada um é só deles. Enquanto sorrires viverá. Mas saiba que no final a vida se torna, também, uma tragédia. E essa tragédia garantirá um último sorriso – mas esse não nos pertence.”
Não me sentia solitário. E eu dizia que não poderia abandoná-lo para uma vida tão miserável. E ele respondia que já estávamos sozinhos. Aquilo que vivíamos era pura ilusão de uma verdade criada há muito tempo e convenientemente compartilhada por ermitões que acreditam estarem cercados de amigos, parentes, enfim, de outros.
- “Às vezes”, dizia ele, “esbarramo-nos nas entrelinhas e nos não-ditos. De vez em quando isso acontece, tropeçamos uns nos outros, como cegos a tatear o nada em busca de um abrigo que não existe... Que nunca existiu”.
Seu semblante mudara, tornara-se mais sombrio, como que se distanciando de algo, ou de tudo e todos.
- “Temos conosco a certeza de não sermos sonhadores. Que ilusão! Esta voraz certeza nos consome. Apesar de tudo, estamos sós no redemoinho do mundo. Sem sentido, sem rumo nem prumo. Eis o nascimento da verdade: nossa maior mentira. Da cegueira mais pura que fizemos nossa única visão. Da máscara que é nossa face. É fuga, erro. Lembrança a nos atormentar. Mas quem poderia nos culpar? Quem poderia culpar o desvio desvairado de atenção... Escolher amar a verdade permite esquecer que não sabemos absolutamente nada... Seria a verdade a mãe da maior das mentiras? Talvez. Mas verdade seja dita, filho, somente ela sorri para nós... E só no final”.
Silenciou de repente. Ficou semanas quieto, mudo. Até que um dia, com um sorriso amarelo no rosto, pôs-se a fitar meus olhos e, num gesto gentil, pediu que eu me sentasse. Ali, naquele sofá rasgado e queimado pelas guimbas de cigarro, meu pai, hoje já falecido, contou-me uma história... Seu swan song...
Um cego ancião, maltrapilho e cambaleante, caminhava pelas ruas a balbuciar coisas consigo mesmo. Há décadas perambulava por aquelas ruas sem dizer uma única palavra. Tinha sido um grande ator e exímio comediante no passado. Mas de súbito perdera sua visão e desde então não via mais graça no mundo. Ao romper seu silêncio, balbuciava consigo que seu passado lhe rendia belas imagens, cada vez mais cintilantes. E que seu futuro armava o cenário para o inevitável. Mas, ao contrário de todos, ele aguardava ansioso pelo derradeiro fim. Eis que, então, o velho ator pôs-se a gritar:
- “Venham, venham todos! É hora do espetáculo! Cheguem perto que eu lhes conto como é a verdade!”
Da pressa cotidiana que costuma regrar e ritmar os passos dos transeuntes, olhos se voltam para o velho cego e, lentamente, se aglomerou uma pequena multidão ao seu redor.
- “Sim, sim, vejo que vocês também a procuram”.
Ele se aproximava de algumas pessoas e com gestos hiperbólicos fazia caras-e-bocas. Tateava-os, dizendo:
- “Sois jovens e esbeltas, posso ver bem! Estaria ela entre nós? Seria você, bela jovem, a nobre verdade? Ou você, minha dama, por acaso?”
Ao encontrar o rosto de um homem imberbe e perguntar se ele seria a verdade, arrancara muitas risadas do público.
- “Pois lhes digo uma coisa... Falo com aqueles que ainda enxergam: cuidado! A verdade está à solta! Deve estar entre nós. Eu mesmo a conheci aqui nesta praça décadas atrás. Ela é jovem, linda, altiva, segura de si e de olhar penetrante. Porém, não se enganem: é arredia... É necessariamente livre e ela não se entrega duas vezes ao mesmo homem. Seu feitiço se instala de uma só vez, em um único e inesquecível beijo. Um apenas é o bastante. Beijo há muito aguardado. Daqueles dignos de um primeiro encontro: ardente e seco. Ardente de vontade, ansiedade, desejo. Seco, porém, pelo nervosismo da estréia, pela expectativa do próximo e da propriedade daquela que jamais possuirá”.
Ele fazia beiços e mostrava língua simulando um beijo cômico. Todos riam do velho homem. Suas artimanhas e gesticulações traziam lágrimas de riso aos olhos dos mais sérios.
Havia de fato algo de risível nas marcas trazidas em seu corpo, objeto do olhar alheio. Mas ali pareciam figurino de uma peça teatral.
Já cansado e com dificuldades para se mexer, seguia falando. Falava de suas lembranças e da esperança de se encontrar com sua bela amante, há muito perdida, mas nunca esquecida. “Ah!”, ele suspirava, “a bela verdade”. E seguia gritando:
- “Ouçam, ouçam todos! Escutem as palavras de um homem que dedicou sua vida inteira a reencontrá-la”, continuava ele. “Como a amei. Buscava-a cegamente... Dia e noite. Sua imagem estonteante, descomunal, seduziu-me em um olhar apenas. Num primeiro beijo me entreguei. Ela, indomável como o sol, no brilho de sua beleza cintilante, ofuscou meus olhos, que fechei durante nosso primeiro e último beijo, para jamais abri-los novamente. E ela desapareceu, para nunca mais voltar”.
Ele puxou de seus trapos um buquê de flores amassadas, arrancando mais risos do público. E dizia que finalmente a encontraria hoje.
Eis que o velho bufão deu uma cambalhota, um salto e de súbito deitou-se na rua. Semblantes de assombro e preocupação diante de tamanhas peripécias de um homem tão idoso arregalaram os olhos de todos os presentes. E ele levantou parte de seu corpo, para o alívio de todos que riram bastante. Deitou-se novamente, contudo. Abriu seus braços como se fosse abraçar alguém. Moveu-se um pouco mais. Tudo parte do espetáculo, ou assim parecia. Até que parou.
Os olhos ainda mareados de lágrimas dos espectadores estavam atentos, pois aguardavam o anúncio do fim de uma peça. Aguardavam o momento do aplauso redentor que os libertaria daquela angústia. Mas o sinal nunca veio. O tempo passou e a comédia da vida do velho cego revelara-se tragédia. Aos poucos as lágrimas secaram. Um a um saíam de cena. Depois dois, três, até que restou apenas uma pessoa. Uma única mulher, muito bela, porém sozinha. Ela sorriu para a tragédia que é ver a vida deixar o corpo de um homem, ainda mais de forma tão solitária, mesmo em meio à multidão.
Altiva e muito exuberante, coisa de mulher muito vaidosa, seu sorriso demonstrava compreensão. Entendia que a vida é comédia até o fim, a tragédia fica para os vivos. Quando, sem pompa tampouco circunstância, sem conhecer uma lágrima de tristeza nos olhos de qualquer um, simplesmente deixamos de existir.
A bela mulher, com o sorriso nos lábios, aplaudiu o falecido homem – que, no derradeiro fim, seu canto do cisne, reencontrara sua amada.
Ela, ainda sorrindo, pôs-se a caminhar... E seguiu em busca de novos amantes.
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