"Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar".
(Carlos Drummond de Andrade)
Por que choramos?
Já me surpreendi indagando sobre isso algumas vezes. Chorar...
Choram as crianças, os bebês e recém-nascidos. Choramos por conta de um arrebatamento. Alegria ou tristeza. Algo que nos retira de um certo cotidiano e nos lança, de maneira violenta ou abrupta, no não-saber. Arrebatador, pois somos incapazes de lidar com tal sentimento, torná-lo compreensível. A insegurança, o temível despertar de um sonho bom para um pesadelo em vida. Ou então, uma alegria de viver incomensurável. Todas formas arrebatadoras que nos lançam às lágrimas.
Choramos, pois, quando não temos palavras para comunicar, nomear ou significar uma experiência. Eco de nosso primeiro instinto e ação no mundo dos vivos, quando recém-nascidos. Chorar é a primeira demonstração de vida, primeira forma de comunicação, anúncio de uma chegada. Porém, crescemos, amadurecemos, endurecemos... Tornamo-nos, pois, duros e, para cada um destes sentimentos que desenvolvemos, o aprendizado de um equivalente, sempre pobre demais para lidar com o que sentimos em nossa alma e que nos faz quem somos. Aprendemos palavras que, de certa forma, confundimos com nossas emoções... Amor, ódio, raiva, afeto, ternura, dentre outras... Ledo engano. Sentimentos são e serão sempre maiores do que nossas meras palavras. Mas, por outro lado, não possuímos outra forma para significar nossas emoções. Errar, entrementes, é preciso. Errar entre sentidos e significados. Errar, pois entre palavras há o abismo - no qual nos encontramos - entre estas e nossos sentimentos.
Mas há momentos, contudo, em que nossas palavras - que não são bem nossas, mas que delas nos apropriamos para nos comunicar, termos algo em comum com outros ao nosso redor - não encontram seu lugar. Às vezes, o silêncio é só o que nos resta e a solidão de um silêncio é também arrebatadora. Não conseguir comunicar nos desperta daquele sono atávico que nos constitui enquanto seres falantes, comunicantes e, por isso mesmo, de certa forma, arrogantes de nossa capacidade de construir sentido. Lança o homem ao universo de sua primeira infância. Lembramos daquilo que foi travestido com muitas palavras, umas mais outras menos rebuscadas. Palavras essas que criamos para esquecer nossa condição. Que desenvolvemos ao longo da vida como artifício para não mais chorar.
Por vezes, não encontramos palavras que traduzam - e é importante que lembremos que toda tradução é sempre traição - nossas emoções... Então choramos. Chorar é nosso elo com o que há de mais primordial e universal no homem. Seus sentimentos e a necessidade de torná-los compreensíveis, para si mesmo e para os outros, ainda que não necessariamente nessa ordem. Sentimentos muitas vezes contraditórios e paradoxais que nossas palavras, substantivas ou adjetivas, resumem e unificam, qualificam ou desqualificam, tornam uno e um apenas. A força destas palavras reside na paz de espírito, na tranqüilidade com que vivemos e nos comunicamos. No entanto, resta tão pouco de nossas lágrimas. Esquecemo-nos de chorar com maior freqüência. Para muitos chorar tornou-se equivalente de um artifício lingüístico, uma palavra, que muito sintomaticamente nos afasta de nosso choro primordial: vergonha... Chorar causa, hoje, em meio às palavras, estranhamento. Chorar tornou-se um ato em si arrebatador. Curiosa situação.
Chorar... Esse momento, cuja beleza reside muitas vezes na sua indescritível e indizível condição única de recordar que somos, também, crianças tentando compreender o mundo estranho ao nosso redor. Chorar... Choramos, pois viver é arrebatador.
"(...) recordar que somos, também, crianças tentando compreender o mundo estranho ao nosso redor."
ResponderExcluirÉééé... André...
Por algum motivo tive a idéia de ver o que tinha aqui para ler. Dei de cara com esse texto e, após lê-lo, só consegui dizer "Éééé... André...". Afinal de contas, ééé... né, André? rs...
Bela pena.
Abraço,
Fausto
Caro amigo de frente, de labuta nessa vida acelerada e que por vezes nos força a nos separarmos de quem amamos. Já conversamos antes sobre o fato da minha ausência, só em comentários, já que em leitura estou sempre por aqui. Reli teu texto, belíssimo, eu já conhecia por ocasião da publicação no dia 10 de maio. Mas hoje, a minha releitura foi busca, busca por palavras andantes, já que de um andarilho. Corri a buscar teu texto pois lágrimas jorravam dos meus olhos, do peito, da alma... Hoje a saudade bateu mais do que nunca. Afinal o que é saudade, já me questionei no último texto n'O Ventríloquo, em uma das minhas "três reflexões sobre partida e chegada"... Lá, eu defino saudade de maneira muito particular e sentindo na pele o que tal definição significa (ainda falta a terceira e última reflexão sobre partida e chegada, estou providenciando). O teu texto é belo, sem dúvidas, mas o sentido, o sentido é mais profundo meu caro André, então, por isso mesmo: muito obrigado.
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