quinta-feira, 23 de abril de 2009

Cogito ergo [non] sum


- Sobre o que conversávamos?


- Sim, quero saber por que estamos ambos aqui?

- É verdade. Outrora nossas conversas foram mais simples. Ou estávamos mais descansados? Esquecemo-nos desta época?

- Que época?

- Bom, ousaríamos afirmar que seja tudo uma mentira? Uma ilusão passageira e sempre mutante.

- Não me venhas com suas vãs filosofias. Bem o sabes que as detesto. São hipócritas, retóricas, obtusas e quase sempre inconvenientes.

- Ora, deixemos disso. Se não quiséssemos tais “filosofias”, como as chamamos, por que estaríamos aqui?

- Não tenho mais ninguém, sabes bem disto.

- Pois temos muitos mais... Outros virão, estejamos certos.

- Como assim?

- Falávamos de uma mentira, certo?

- Certo.

- Pois bem, que é uma mentira, nisso concordamos, correto?

- Disso não tenho tanta certeza. Mas prossiga.

- Bom, estamos aqui. No entanto, procuramos uma âncora. Uma certeza imutável. Algo de monolítico que nos torne parte de algo maior, que nos faça pertencer a algum lugar. Que não seja este lugar no qual no encontramos, certo?

- Bem, hã... Seria isso a identidade?

- Poderíamos chamar de identidade.

- E em que medida isso seria uma mentira?

- A identidade é um ideal. Ideais nunca são alcançados. Eles restringem nossa visão e horizontes sempre mutantes. Torna-se mentira, pois identidade lança o múltiplo e o plural no uno e indivisível. Isto é, tudo o que não somos. Como é de se supor, um único continente não consegue comportar muitos conteúdos diferentes. Eventualmente transbordamos. E eis que nos encontramos aqui.

- Como assim, isso significa que sou louco? Que eu não existo?

- Talvez... Enquanto sujeitos, “eu” e “você” não existimos, não Somos. Somente nos tornamos quando juntos. Sendo em paralelo.

- Não entendi nada. Eu sou o que mesmo? Um esquizofrênico?

- Não. Você não É.

- Nada... Eu não sou nada?

- Somos apenas enquanto somatório de múltiplas personalidades. Esse “indivíduo” que visamos construir a partir de uma identidade é uma ilusão, uma mentira. Somente poderemos existir enquanto pluralidade. Multiplicidade, diferença. Não existe só um eu, ou um você. Somos apenas em conjunto. Eis a mentira da identidade. Ela cala nossas vozes, violenta nossas almas e exige nosso silêncio. Isso quando não é inteiramente cega... Cega sobre o(s) Outro(s).

- Que outros? Outros como eu?

- Não, diferentes.

- Quanto diferentes?

- Infinitamente diferentes.

- Melhores ou piores?

- Nem um nem outro. Apenas diferentes.

- Bom, mas se há outros em nós, como você fala... Digo, em nós mesmos, e há outros por aí, que, mesmo sendo diferentes, têm múltiplos de si, ainda assim temos algo em comum. Pertencemos a um gênero que nos une, não? Há uma identidade, no fim das contas, não?

- Ora, sim e não. Sim, pois somos humanos, ainda que o conceito de humano seja uma abstração bastante elástica e permita comportar a todos nós. E se comporta a todos, não distingue nenhum. E não, porque nem sempre as pessoas se reconhecem a si mesmas como muitos, devido à complexa experiência em que a imensidão de “eus” nos insere. Ao nos lançar na pluralidade, ficamos perplexos.

- Eu estou perplexo.

- Por isso buscamos a identidade. Ela é um porto seguro diante da perplexidade, da insuficiência de respostas, da insegurança, da incerteza. Por isso, também, acreditamos ficar perplexos. Achamos que tudo isso é novidade para um suposto “eu”, quando em algum lugar já sabíamos disso. Já havíamos escolhido fingir não saber. É a mentira que eventualmente nos constitui.

- Não entendi.

- Essa é a questão. Normalmente escolhemos antes de saber o porquê de nossa escolha. A jornada recomeça na tentativa de entender, ou re-significar, a nossa escolha.

- Mas tem de haver um elo que reúna essa multiplicidade toda, não é possível!

- Estamos dialogando, não?

- Sim.

- Bom, ou isso é o fracasso da identidade, ou um claro sinal de que a insanidade já nos alcançou.


- Ou ambos, certo?

- É.

- E o que posso fazer? Como driblar a insanidade?

- Podemos abraçar o fato de que somos muitos e o mesmo. Podemos viver uma vida dupla, tripla, quádrupla... Infinitamente plural. Mas sem que isso se torne patológico. Senão não seremos sinceros. Viveremos diferentes vidas, porém uma de cada vez. E isso seria novamente mentira.

- Como assim?

- Isso não nos abriria aos outros, às diferenças, às muitas possibilidades que nos fazem quem somos, quem nos tornamos e como viemos a ser. Isso faria de nós pessoas hipócritas, necessariamente loucas, que não se restringem a uma vida, mas somente podem viver uma vida de cada vez, dentro da pluralidade. Isso seria bem insano. Normalmente esse uno (a cada momento) assume-se como o "Bom", o "Certo", o "Caminho" e a "Verdade". Mas não somos esse “um”. Somos muitos. Esses muitos caem freqüentemente em contradição com a unidade indivisível do “ser um”. Perseguimos o uno e não o atingimos. Talvez isso sim seja insano, pois pode se tornar muito frustrante. No ritmo enlouquecedor do mundo, tornamo-nos violentos, depressivos, melancólicos, psicóticos, neuróticos, viciados etc., pois não podemos lidar com o fato de que aquilo que perseguimos é uma mentira.

- E o que fazer?

- Estamos dialogando, certo?

- Sim.

- Isso significa que estamos tentando achar respostas.

- [Hurm]...

- Ergo, achamos que, pelo menos inicialmente, podemos abrir uma janela à chamada “loucura”. Não custa nada. Vejamos o que entra por ela. Quem sabe alguma luz, para começo de conversa.

- Quem sabe algum maníaco, assassino, psicopata?

- É...

- É o que?

- O(s) “Outro”(s) assusta(m), não? A possibilidade da diferença. Do estranhamento. Não saber, pois é diferente.

- Não é que eu tenha medo... É que...

- Bom, podemos ver a tudo isso como uma aventura. Se quisermos pensar por um lado positivo. E essa possibilidade é bastante sedutora, convenhamos.

- E assustadora.

- Ah... Sim, mas só há um jeito de descobrir.

- Creio que sim. Mas e se eu quisesse fazer com que sua voz se calasse?

- É difícil abrir mão de si, não?

- Muito.

- Bom, a jornada continuaria. Ela sempre continua, independentemente das escolhas que efetuamos. Quer dizer, se quisermos crer em um suposto e muito duvidoso “você” e um “eu”, que assim seja. Nesse caso, e nele apenas, só o seu "tu" poderá operar essa ação.

- Como assim?

- É preciso muito esforço para manter caladas as vozes que te(me)mos. Elas nos gritam incessantemente. No máximo, o que conseguimos fazer é, em meio à cacofonia de vozes sobrepostas, desviar a atenção para apenas uma. Ou então tentar abstrair do ruído ensurdecedor e criar algum foco, seja ele qual for. Já o tentamos anteriormente.

- Essa seria a identidade?

- A mentira.

- Deve ser muito difícil.

- Talvez, pois é labuta incessante. Eventualmente nos cansamos e cedemos.

- Como em sonhos?

- Sim, pois nos sonhos as vozes também nos falam. É apenas difícil decodificá-las, pois somos sempre muito seletivos com aquilo que queremos ouvir. Principalmente em nossos sonhos.

- Parece que sim.

- Outra forma de lidar com o cansaço é a chamada insanidade. Simplesmente exauridos do trabalho de calar, desistimos. Simples assim: fadigados, nos entregamos à audição das mais diferentes vozes, que nos soam estranhas, pois nunca as ouvimos anteriormente. São balbucios de vozes nunca d’antes ouvidas, decodificadas ou significadas. Por isso não costumam fazer sentido. São vozes que não dialogam entre si, como estamos fazendo agora. Nada em comum, nada em comunicação. Perderam o fio da meada. São estanhas e estrangeiras. Como uma Torre de Babel.

- Então deveria haver um elo entre essas vozes, digo, as vozes dos outros? Algo como uma identidade?

- Não necessariamente... Bom, deverá haver um espaço para o diálogo. Somente nesse diálogo poderemos Ser.

- E se não houver?

- Bom, talvez a insanidade nos alcance. Ou o vício, o suicídio, a identidade. Pois, as vozes continuarão a falar, gritar e balbuciar quaisquer coisas que venham às suas bocas. Na hora, da forma e para quem bem entenderem. Eventualmente isso nos isolará do mundo. Acostumamo-nos a viver sob a aparência de uma identidade monolítica. Ela está habituada a falar através de uma única voz, a “verdadeira” voz. E a ouvir um único som, o da própria voz. A voz que considera ser a da razão.

- Colocando dessa forma, acho que temo a insanidade.

- Ah! Agora sim, reconhecemos o medo e o temor que nos aflige. É um bom começo. E o que é insano?

- Até o momento, para mim, “insano” era falar sozinho, elaborar perguntas e respondê-las logo em seguida, certo?

- Como assim sozinho?

- ...

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