domingo, 22 de março de 2009

O herói e o histrião

Fadigado. Cá estou novamente em busca de mim mesmo. Soa tão clichê... Mas por que não ser clichê? Não se pode ser original, senão na mentira, ou então no erro.

Sou tantos e, no entanto, esgoto minha existência em busca de um “Eu” que faça de minhas memórias e expectativas algo palatável, suportável. Quero ser o herói de minha história. Quero salvar os bons e punir os maus. Mas sei que isso é mentira. Perpetrei o mal sobre bons, embora para mim eles tenham sido e sejam sempre maléficas criaturas. No fim, é sempre a memória que vence tais contendas. A culpa, por sua vez, desmonta qualquer heroísmo.

Fui bom quando quis ser mal, somente para ser apreciado. No entanto, não darei o braço a torcer, não quero ser o louco. O histrião, o esquizofrênico, o contraditório... Ninguém quer ser o “quadrofênico”, como naquele disco de 1973, um poço de contradições... Quero ser o “The real me”. Quero ser o herói da história. Mas é um erro, uma mentira, sou aquele que não é sempre o mesmo.

Sou o louco também. A loucura é a única válvula de escape diante de um mundo enlouquecedor de ciência, racionalidade e identidade. Tudo é tão asséptico, tão esterilizado. Acho que a pior loucura é acreditar ser cem por cento são. Maníacos que se apresentam cientes de si e do mundo, sem nunca extravasar suas inúmeras dúvidas, anseios e desejos. É frustrante... Como máquinas de impessoalidade, em sua imparcialidade dilaceram e trucidam os que passam a sua frente sem remorso. Erotomaníacos... amam até a morte. São loucos que nunca abraçaram sua insanidade. E como pode ser salutar encontrar a si mesmo diante das múltiplas faces que cotidianamente nos apresentam as contingências da existência humana... Que coabitam nosso "Ser".

Divago sobre coisas não lineares, existência e vida em outras galáxias. O sexo como fuga da realidade. E eis que me vejo diante dos quadros da escola primária. Observo meus pulsos cerrados, o sangue em minhas mãos... A cabeça aberta de um coleguinha que somente tinha seus erros consigo, nada mais. Mas era demais para mim. A diferença me levou ao homicídio. Seria essa a tal natureza humana? Seria isso? Seria esta tal natureza mais uma fuga? Na ânsia de esconder o que realmente somos, inventamos a filosofia e seus desvios retóricos. A filosofia como fuga. Sim, mais de 5 mil anos de fuga de nós mesmos. A memória que lança a culpa em Deus e não assume a responsabilidade pela violência perpetrada ao outro? A busca por um espelho na natureza, algo que nos insira no mundo, mas que ao fazê-lo nos exima de qualquer responsabilidade mundana? Nos dê uma casa no mesmo movimento em que nos dê sustento e a certeza de não sermos os responsáveis. O castelo ou o manicômio? Seria o castelo um manicômio ou o a casa de lunáticos nosso castelo?

Vejo-me correndo de alguém, pulo pela janela na noite... Não vôo. Instantes antes de morrer acordo. Seria um sonho? Vejo-me diante do espelho... A navalha em minha mão direita... Seria um filme? Um quarto de bordel. O cigarro queimando sozinho, mas não fumo. O gosto da bebida ainda em minha boca. A sensação de torpor. A sede. A prostituta ao meu lado pergunta se eu tenho dinheiro trocado e, de repente, tudo fica mais claro. E isso me seduz ao mesmo tempo em que me atemoriza.

A fuga permanece. Tenho de ser o herói de minha história? Tenho de ser o homem bom? O bom samaritano? Jamais um filisteu?

Tenho de levar a esperança onde só existe a dúvida. No entanto, sou tantos... sou uma legião de seres em conflito declarado. Sou o filisteu. E me odeio por isso. Sou meu pior inimigo, maior crítico e também maior fã. Sou meu herói e inimigo. Sou também louco. Odeio-me e odeio tudo o que é diferente.

Odiar? Que palavra forte. Só odeia quem também ama. Amo e odeio o paradoxo e a contradição. Tudo o que é uno e indivisível. Ser autorreferente tem suas conseqüências.

Nada me convence de que o erro é só o que temos. Entretanto, o erro é necessário. É o que me faz caminhar. Buscar a mim mesmo, ainda que chafurde no clichê. Procurar uma essência, a generalização da aparência, a “coisa em si”. Tenho, porém, a consciência do erro. E ser o histrião talvez me permita lidar com a contradição. Me pergunto se "Ser" louco, numa era de ciência e sanidade, não seria, também, uma forma de arte. E não seria a arte que tornaria a existência suportável? Que arte seria esta que me permite ser um a cada instante e tantos a todo momento?

1 comentários:

  1. Caro Andarilho... há muito que conversar e contar. Mas farei uma "sintese histórica", temendo deixar algo de fora. Mas vamos ao que mais nos interessa. Viagem boa. Terra boa e barata. Fui bem recebido. Fui bem nas provas. Porém, não sei o motivo, a instituição de lá, não libera os resultados dos concursos (mesmo extra-oficialmente), até a reunião dos respectivos departamentos e a devida homologação do resultado, para, aí sim, haver todos os trâmites de contextação ou não do resultado. Mas, no geral, realmente fui bem, tive até sorte, o ponto da prova escrita foi "Formação das Monarquias Medievais Européias" e o ponto que sorteei para mim na prova aula foi (pasme no quesito sorte): "A Crise no Medievo Europeu". Ou seja, eu poderia ter pego algo de Antiga, mas acabou vindo tudo de Medievauuuuuuuuullllllll mesmo! Creio que fiz uma prova escrita amarradinha, estilo artigo, com direito a bibliografia no final e destrinchada (geral, especifica e, ainda, de carater teórico-metodológico!). A prova aula, não abusei. Fiz uma aula de abertura de unidade, ou seja, a unidade era o ponto e o tema da minha aula foi: "Perspectivas historiográficas sobre o fim da Idade Média e os aspectos gerais da crise". Os dois objetivos especificos foram: discutir a historiografia classica sobre o assunto (Wolff, Huinzinga e enfiei um Baschet para discutir os "marcos temporais sobre o Medievo e seu "fim" - a doida tese legoffiana de "longa idade média", enfim). Como "avaliação", pedi que produzissem um texto, estilo paper, para se entregue no prazo de duas semanas comparando um capítulo do Huinzinga com o um do Baschet e deixei claro que me aprofundaria nos "aspectos da crise" (fome, peste, guerra, bla, bla) nas aulas subsequentes! Metauuuuulll. Ou seja, não inventei muito, mostrei erudição e ao mesmo tempo didática e bom senso, pois quem consegue dar "crise do medievo" em 50 minutos!? Enfim, estamos no aguarde, talvez, no final dessa semana ou da outra sai o resultado! E vamos que vamos!

    Abração!

    Ps. Recebeste a "dancinha do Kimon"? Hehehe

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