segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Graphic Novel

Nota preliminar: o texto que segue é um tributo. Ao quê ou a quem, fica a cargo do leitor me dizer. A seguir, a primeira parte de uma série de seis "episódios" que escrevi e que irei publicar aqui a partir de hoje. No seu conjunto, o texto completo possui um tipo muito peculiar de diagramação, que lhe rende um aspecto "gráfico" importante e que faz parte da narrativa, como fica claro a partir do título. Isso pode causar certo desconforto. Não pensem que isso é por acaso. Por falar em título, devo-o ao grande mestre Ivan Norberto dos Santos. Inclusive, devo a ele, também, a iniciativa para escrever esta pequena estória, pois ele me encorajou muito. O texto foi escrito há algum tempo (na íntegra) e foi o meu debut literário, por mais pretensiosa que possa parecer tal afirmação. A ele dedico o texto e agradeço por seus comentários e críticas, mais do que pertinentes e construtivas. Aos poucos publicarei as outras partes. Faço-o desta forma para poupar o leitor de um texto muito extenso, pois, bem se sabe, é extremamente fastidioso ler na tela do computador.



Graphic Novel


I.

[Barulhos]

[Sirenes, carros de polícia e ambulâncias, pessoas gritando... que bela forma de despertar! Que dia é hoje?]

Terça-feira, acho... Acordado novamente. Mais um dia.

[Menos um dia!]

Acho que mataram alguém. Parece que... Bom, pegaram mais um.

[Menos um!]

Chove torrencialmente. Um dia escuro. Manhã negra de um inverno que se espreme entre o verão e o inferno nesta cidade.

Uma vez desperto, fica difícil dormir novamente. São muitos remédios. Meu quarto permanece com aquele odor fétido de suor característico das minhas roupas. Mas há algo de diferente. Parece que há algo a mais no cheiro, que eu não consigo identificar bem o que é.

[Estou sujo... Mas me sinto mais limpo do que nunca!]

Eu também estou imundo. É como se tivesse rolado na lama antes de dormir.

[É... na “lama”...]

Não lavo minhas roupas há semanas... A janela ficou aberta, deixou que a chuva lavasse algumas páginas em cima de minha mesinha de cabeceira...

[É apenas um banco velho!]

Quem se importa! As páginas estão molhadas. Arruinadas. Minha história perdida.

[Ainda bem!]

Quem vai se lembrar de mim?

[Eu!]

Merda... Preciso de meus remédios!

[Covarde!]

Saio do quarto. Pela primeira vez no ano faz frio nesta cidade. Devemos estar em meados de julho. Às vezes perco a noção do tempo. As goteiras e poças se espalham pelos cantos da casa.

[Casa?! É apenas um cubículo, uma pocilga!]

Na cozinha, minhas companheiras vasculham o lixo deixado sobre aquilo que um dia já foi uma pia. A geladeira está como alguém a deixou, anos atrás: aberta... vazia. Ela está desligada, não há eletricidade na casa. Pelo menos a água que bebo está relativamente fresca, graças à temperatura amena. É a primeira vez no ano que bebo água fresca. Mas por uma razão que eu não consigo apreender, estranhamente não estou com sede hoje... e eu sempre acordo com sede.

[Eu estou com sede! Novamente...]

Bom, remédios. 1, 2, 3, 4... faltam ainda 3 cápsulas. Já não as tomo há tempos.

[Você é uma desgraça!]

Um brinde, minhas amigas. Saúde!

São muitos remédios. Alguns já acabaram. Ao beber a água sinto algo estranho...

[Déjà vu, talvez?]

Devo ter passado tempo demais bebendo água morna ou quente, deve ser isso...

[É... deve ser isso...]

[Onde foi que eu errei?]

- Hã? Já desperta, megera? Suponho que não haja nada para comer, não é?

[O que você esperava? Cafezinho na cama? Um beijo de bom dia?]

- Não seria nada mal.

[Suma da minha frente, traste! Você não vale a pena! Eu devia ter dado você para adoção!]

- Também não teria sido nada mal. Quem sabe? Eu poderia ter me tornado alguém na vida. Eu poderia ter sido famoso. Um médico, um advogado...

[Cale esta sua maldita boca!]

[Você me lembra deles. Me sinto tão suja. Vá embora, suma logo!]

- É... Eu também te amo.

[Monstro. Crápula. Desgraçado!]

Saio da cozinha. Passo rapidamente pelo meu quarto. Recolho algumas leituras para o dia. Minha literatura. Fonte de inspiração...

[Fonte de piração!]

Meus quadrinhos e novelas gráficas. Que seria de mim sem a minha literatura? O mundo ganha novas cores através das suas páginas. Não me lembro mais se o meu mundo faz sentido através das revistas, ou se são as revistas que se tornam especialmente compreensíveis para mim a partir do mundo que espelham e ilustram. O fato é que eu já não consigo mais diferenciá-los. Ao meu redor, todos são personagens... Num vasto conjunto de quadros pintados em tons escuros...

Quando olho pela janela... Não sei o que vejo. Eu não lembro de nada além da realidade que leio diariamente naquelas páginas. Não conheço outro mundo.

Ao cruzar a porta da cozinha, ela ainda me amaldiçoava.

[Maldito. Miserável. Filho da puta... da Puta. Daquela puta!]

Às vezes acho que “filho da puta” é meu nome.

Meu nome... às vezes esqueço meu nome.

[Eu lembro seu nome!]

[Filho da puta... da puta... puta... pu... pu... ta... t.]

O corredor está bastante escuro. Na saída da cozinha, tropeço no vaso com uma planta morta.

Já deveria ter me desfeito deste vaso. Sempre tropeço nele.

A planta está morta.

Ela está morta.

Morta.

O vaso é da minha mãe.

A planta é dela.

O vaso é...

[Cale a boca!]

A minha mãe.

A planta...

[da puta...]

Mãe

Planta.

Morta.

[puta...]

O vaso me machuca sempre que tropeço nele.

O vaso...

Machuca-me.

A planta me machuca.

[pu...]

Da mãe. Machuca.

Morta.

Estou confuso. Acho que meu “café da manhã” está fazendo efeito.

Sua voz vai esmaecendo à medida que me aproximo da porta de casa. Saio finalmente. Mas não lembro porque. Enfim, sua voz se cala.

Estou sozinho. O corredor é como uma extensão de minha vida. Frio, escuro e vazio. Ainda gritam nas ruas. As vozes de outros se confundem com as minhas.

A minha, digo.

Já não lembro mais se estou sozinho. Acho que sim. Olho para trás e penso: porque não jogo fora aquele vaso? Ele me machuca.

Lembra-me dela.

1 comentários:

  1. Meu caro, acabo de ler a primeira parte. Confesso que terei que fazer uma pequena relação com meu último post n'O Ventríloquo, já concordando com tua opinião, em partes, claro! Não que exista uma relação intensa, nada disso! Me refiro ao quesito "palavras" e "linguagem". Meu amigo, o texto é ótimo e por ser realmente bom, e se eu não gostasse seria ligeiro e menos prolongado na crítica, afirmo que ele é digno. Digno? Sim! Digno de receber palavras pintandas! Lembra da linguagem? Lembra-se bem do questionamento e, por fim da minha "conclusão" por você tão bem analisada? Pois é! Talvez, eu me extenda na próxima parte que, confesso, meio envergonhado, que comecei a ler antes de perceber que você já havia publicado a "introdução". Pois não vi n'O Ventríloquo que o Micelânea havia atualizado. Mas é isso, ficou um gosto de vontade de ver, entende? Uma vontade de ver além do que vi, pois, sim, devo confessar, sem vergonha alguma, que enquanto lia, via imagens, vi as cenas, quase senti o cheiro do quarto, o gosto dos remédios. Para mim, um viajante que vive a imaginar, já está de bom tamanho. Porém, por ser digno, reafirmo, o texto merece um bom ilustrador!

    Parabéns!

    ResponderExcluir