II.
Adoro a rua. O barulho da metrópole soa como música para meus ouvidos cansados. Silencia as vozes indesejáveis daqueles que já se foram, ou deveriam ter-se ido há muito.
Vago em meio a inúmeras pessoas. Em seus mundinhos herméticos, cada uma segue a rotina que lentamente as conduz a lugar nenhum. Roupas aprumadas, perfumes baratos e penteados chiques. Vestem suas fantasias uns para os outros, nunca para si. Jamais notarão que são personagens numa fábula sem heróis, sem trama nem enredo. Não há justiça, não há sentido. Há um teatro de sombras apenas. Um baile de máscaras. Fumaça e espelhos.
Sigo invisível. Meu odor por vezes denuncia minha presença, especialmente em becos e trechos da rua nos quais o fedor das calçadas desaparece. Isso afugenta alguns poucos, que se afastam ou desviam de mim. Nunca olham nos meus olhos.
Mais uns passos adiante e sigo, de novo invisível. E que dom fantástico é poder ser invisível! Observo-os minuciosamente. Vigio e investigo seus hábitos, anoto tudo o que posso, quando posso, e em filigrana.
Meu quarto fica numa espelunca próxima ao centro da cidade. É um prédio semi-abandonado, mas que já foi condenado pela prefeitura, e nem os ratos nem os viciados querem continuar ali.
Eles foram meus vizinhos por uns tempos. Mas até eles têm critérios e temem por suas vidas. Minhas pequenas amigas e eu conseguimos morar ali. Não há problemas quanto a isso. Somos sobreviventes.
Não me lembro de nada além deste mundo. A decadência... É tudo o que eu conheço. Isso me conforta... Bom, pelo menos neste momento. Assim posso conviver com os mais variados tipos. Mendigos, aproveitadores, falsários, estelionatários, cafetões, punguistas, traficantes, travestis, policiais, prostitutas e seus clientes. Ah! sim... Os clientes...
Estes são figuras engraçadas. Seus carrões, suas roupas... Cada um com as suas fantasias.
Grandes figuras... Imponentes... Importantes. Políticos eminentes, mas também os decadentes. Atores, atrizes, músicos, poetas, clérigos, advogados, filósofos, estudantes universitários e boêmios. Muitos freqüentam a minha vizinhança. Alguns quase religiosamente. Este é o cenário de minha grande história.
Alguns se aventuram a olhar nos olhos dos pobres. Deve ser uma experiência e tanto. Poucos estendem a mão para oferecer algum agrado. Os que o fazem, sempre tomam algo para si. Eles gostam de espremer o pouco que ainda resta de humano naquelas vidas podres atrás de um punhado de prazeres mundanos... carnais. Buscam algo de real, verdadeiro. Querem viver algo que curiosamente chamam de “fantasia”. Em troca, dão uns míseros trocados. E seguem com suas “vidas”, ou deveria dizer, suas fantasias.
Todos me conhecem. Pelo menos aqueles que eu quero que me conheçam. Alguns me chamam de “Maluco”. Para eles o meu nome é Maluco. Os que conseguem me ver, é claro. Às vezes não lembro do meu nome.
Dizem que eu vivo num mundo de fantasia. Eu até gosto desse papel. Rende alguns pratos de comida diários e cobertores para o inverno. Por isso deixo que me vejam.
Tudo ali está à venda. O corpo, a alma, os órgãos, o sangue, o sêmen, a vida e a morte.
Paro diante de uma banca de jornal. Mas apenas para ouvir o burburinho.
- Pegaram mais um!
- Quem foi desta vez? O diretor?
- Não, não, muito pior!
- Como assim pior?
- Pegaram o ator que interpretou o vilão.
- Aquele garotão? Filho do general?
- É, ele mesmo.
- Isso não vai terminar bem.
Desde que terminaram as filmagens da mais badalada adaptação de uma novela dos quadrinhos, estes crimes vêm acontecendo. Nada violento, pelo menos até alguns dias atrás, quando espancaram o ator que interpretou o protagonista.
Os crimes, no geral, envolveram vandalismo, depredação dos figurinos, cenários... Essas coisas. Parece que a primeira emboscada violenta era para esse tal filho de general, morto na noite passada. Por isso, o “queridinho” das telas atacado não morreu imediatamente. Mas ele acabou morrendo no hospital, parece que o fato de ele estar cheio de drogas agravou o quadro que já era crônico.
Eles eram amigos de infância. Freqüentavam com enorme assiduidade minha vizinhança. Gostavam de pegar pesado nas drogas. Saíram algumas vezes com alguns travestis da área. Certa vez, eles espancaram uma boneca quase até a morte. As más línguas dizem que os “filhinhos-de-papai” se indignaram com o “algo a mais” do travesti.
Inveja talvez? Não importa. Eles saíram de circulação por umas semanas - acho que passaram uma temporada na Europa. No final das contas, não pegou nada para o lado deles, pois um deles era o filho do general.
O filme que fizeram é sobre um personagem de quadrinhos, o meu favorito. Desde uma mal-sucedida peça teatral, anos atrás, que não se fazia algo assim sobre ele. É a primeira adaptação para o cinema de uma história deste grande nome dos quadrinhos: o “Vigilante”. Um homem destemido, que após perder tudo para uma vida miserável e injusta, devota suas noites a fazer justiça com as próprias mãos.
A peça, anos atrás, foi um fracasso total. Não gosto nem de me lembrar. Dizem que um dos atores principais desapareceu sem deixar vestígios. Mas acho que não o cogitariam para o papel no cinema. Ele estaria na casa dos cinqüenta...
Meu quarto fica numa espelunca próxima ao centro da cidade. É um prédio semi-abandonado, mas que já foi condenado pela prefeitura, e nem os ratos nem os viciados querem continuar ali.
Eles foram meus vizinhos por uns tempos. Mas até eles têm critérios e temem por suas vidas. Minhas pequenas amigas e eu conseguimos morar ali. Não há problemas quanto a isso. Somos sobreviventes.
Não me lembro de nada além deste mundo. A decadência... É tudo o que eu conheço. Isso me conforta... Bom, pelo menos neste momento. Assim posso conviver com os mais variados tipos. Mendigos, aproveitadores, falsários, estelionatários, cafetões, punguistas, traficantes, travestis, policiais, prostitutas e seus clientes. Ah! sim... Os clientes...
Estes são figuras engraçadas. Seus carrões, suas roupas... Cada um com as suas fantasias.
Grandes figuras... Imponentes... Importantes. Políticos eminentes, mas também os decadentes. Atores, atrizes, músicos, poetas, clérigos, advogados, filósofos, estudantes universitários e boêmios. Muitos freqüentam a minha vizinhança. Alguns quase religiosamente. Este é o cenário de minha grande história.
Alguns se aventuram a olhar nos olhos dos pobres. Deve ser uma experiência e tanto. Poucos estendem a mão para oferecer algum agrado. Os que o fazem, sempre tomam algo para si. Eles gostam de espremer o pouco que ainda resta de humano naquelas vidas podres atrás de um punhado de prazeres mundanos... carnais. Buscam algo de real, verdadeiro. Querem viver algo que curiosamente chamam de “fantasia”. Em troca, dão uns míseros trocados. E seguem com suas “vidas”, ou deveria dizer, suas fantasias.
Todos me conhecem. Pelo menos aqueles que eu quero que me conheçam. Alguns me chamam de “Maluco”. Para eles o meu nome é Maluco. Os que conseguem me ver, é claro. Às vezes não lembro do meu nome.
Dizem que eu vivo num mundo de fantasia. Eu até gosto desse papel. Rende alguns pratos de comida diários e cobertores para o inverno. Por isso deixo que me vejam.
Tudo ali está à venda. O corpo, a alma, os órgãos, o sangue, o sêmen, a vida e a morte.
Paro diante de uma banca de jornal. Mas apenas para ouvir o burburinho.
- Pegaram mais um!
- Quem foi desta vez? O diretor?
- Não, não, muito pior!
- Como assim pior?
- Pegaram o ator que interpretou o vilão.
- Aquele garotão? Filho do general?
- É, ele mesmo.
- Isso não vai terminar bem.
Desde que terminaram as filmagens da mais badalada adaptação de uma novela dos quadrinhos, estes crimes vêm acontecendo. Nada violento, pelo menos até alguns dias atrás, quando espancaram o ator que interpretou o protagonista.
Os crimes, no geral, envolveram vandalismo, depredação dos figurinos, cenários... Essas coisas. Parece que a primeira emboscada violenta era para esse tal filho de general, morto na noite passada. Por isso, o “queridinho” das telas atacado não morreu imediatamente. Mas ele acabou morrendo no hospital, parece que o fato de ele estar cheio de drogas agravou o quadro que já era crônico.
Eles eram amigos de infância. Freqüentavam com enorme assiduidade minha vizinhança. Gostavam de pegar pesado nas drogas. Saíram algumas vezes com alguns travestis da área. Certa vez, eles espancaram uma boneca quase até a morte. As más línguas dizem que os “filhinhos-de-papai” se indignaram com o “algo a mais” do travesti.
Inveja talvez? Não importa. Eles saíram de circulação por umas semanas - acho que passaram uma temporada na Europa. No final das contas, não pegou nada para o lado deles, pois um deles era o filho do general.
O filme que fizeram é sobre um personagem de quadrinhos, o meu favorito. Desde uma mal-sucedida peça teatral, anos atrás, que não se fazia algo assim sobre ele. É a primeira adaptação para o cinema de uma história deste grande nome dos quadrinhos: o “Vigilante”. Um homem destemido, que após perder tudo para uma vida miserável e injusta, devota suas noites a fazer justiça com as próprias mãos.
A peça, anos atrás, foi um fracasso total. Não gosto nem de me lembrar. Dizem que um dos atores principais desapareceu sem deixar vestígios. Mas acho que não o cogitariam para o papel no cinema. Ele estaria na casa dos cinqüenta...
[Eu me lembro...]
No teatro ele interpretou o vilão, o “Macabro”. O cara tinha muito talento, era famoso. Mas a peça foi uma espécie de piada. Mas foi considerada uma piada de mau gosto. E ninguém achou graça. Bom, ninguém não. Alguns riram, de forma velada. Talvez fosse a época errada, não sei.
Nem sempre fomos uma sociedade livre. E, talvez, um vilão chamado “Macabro”, cujo uniforme era claramente um conjunto de colagens inspiradas em uniformes das Forças Armadas tenha soado um pouco forte demais. A peça, que custou milhões para ser produzida, foi cancelada em menos de uma semana. Levou muita gente à bancarrota.
Muito se comentou na época. Mas o caso foi rapidamente abafado. Cogitaram que este ator teria sido espancado e torturado por uns... Bom, digamos assim: uns homens de farda. E desde então nunca mais teria sido visto. Como ele não tinha família, tudo foi esquecido rapidamente. Uma pena, ele seria um excelente “Macabro” nas telas.
Nem sempre fomos uma sociedade livre. E, talvez, um vilão chamado “Macabro”, cujo uniforme era claramente um conjunto de colagens inspiradas em uniformes das Forças Armadas tenha soado um pouco forte demais. A peça, que custou milhões para ser produzida, foi cancelada em menos de uma semana. Levou muita gente à bancarrota.
Muito se comentou na época. Mas o caso foi rapidamente abafado. Cogitaram que este ator teria sido espancado e torturado por uns... Bom, digamos assim: uns homens de farda. E desde então nunca mais teria sido visto. Como ele não tinha família, tudo foi esquecido rapidamente. Uma pena, ele seria um excelente “Macabro” nas telas.
[O melhor!]
Lembro quando liam para mim as histórias do “Vigilante”. Eu ainda era pequeno.
[Pirralho de merda!]
Gostava dos desenhos, das formas grotescas, das máscaras e, é claro, da justiça feita a ferro e a fogo. Os cenários eram como as ruas do meu bairro. Sombrias, sujas e perigosas. As histórias eram repletas de tiradas sarcásticas, analogias políticas, metáforas sexuais, humor negro e tudo aquilo que passaram a censurar, mas que ninguém percebia, pois, como dizem:
- Quadrinhos são coisas para crianças!
Muitas destas sacadas eu só vim a entender mesmo muitos anos depois. Eu adorava suas roupas, seu uniforme. Negro como a noite, sombrio como a vida.
Quando eu era pequeno, eles liam as histórias para mim. Os homens que entravam e saíam da vida dela.
Quando eu era pequeno, eles liam as histórias para mim. Os homens que entravam e saíam da vida dela.
[Aquela puta miserável!]
Alguns eram melhores do que outros. Faziam vozes e caretas. Eu adorava ouvir suas vozes. Outros apenas enrolavam. Os que voltavam algumas vezes, traziam novas histórias. Depois desapareciam.
[Melhor assim, eram péssimos intérpretes!]
Não importava muito, eu logo os esquecia. Eles iam embora, mas os quadrinhos sempre ficavam.
Clientes são figuras engraçadas.
Clientes são figuras engraçadas.
Pois é grande André... continuo, agora com mais segurança, reafirmando que a história merece mais do que tua lapidação de bom escritor... Mas não serei chato e não me fixarei nisso, pelo menos, por enquanto!
ResponderExcluirBem, sou suspeito para criticar tal "estilo", tal "fluxo de narrativa", até porque você já andou lendo uns contos meus e observou que gosto dessa linha que muitos chamariam de "complicada", "pesada"... Banana pra eles (sem desrespeitá-los, é claro). O que conta no momento para mim é a curiosidade atingida, pois toda e qualquer crítica aqui sobre a história seria hipócrita e sem resultados, já que você ainda não terminou de nos contá-la. O questionamento sobre as ilustrações não foi por acaso, mas uma dúvida que, talvez, alguém até já tenha te proposto e, na minha esperança, você já até tenha se aventurado a se questionar. No mais, continuarei como adolescente depois que sai da escola ao meio-dia e corre direto para a banca de jornal comprar a segunda parte de "Um conto do Batman", não comparando à revista da nossa primeira juventude, pois, nesse caso, meu amigo, você a partir de hoje ignoraria todo e qualquer comentário meu, pois seria muito mais carregado de emoção e companheirismo literário que diálogo bom e necessário!
Vê se não faz como a "Abril" e libera isso semanalmente, ao invés de quinzenalmente! Hehehehe!
Caro Bruno, para mim um dos principais méritos desse texto é justamente esse: estimular imagens, e imagens gráficas, fortes e altamente degustáveis, particularmente para um velho nerd como eu, que aprendeu a ler com e por causa dos quadrinhos, idos de 70. Ilustrá-la não seria talvez reduzi-la no que tem de mais interessante: essa tradução bem feita de uma linguagem na outra? Pergunto e não afirmo, que o principal é a troca. Te ouço.
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