sábado, 24 de janeiro de 2009

Prelúdio para "o jogo": apenas uma (longa) epígrafe

(...) Um homem que vingou faz bem a nossos sentidos: ele é talhado em madeira dura, delicada e cheirosa ao mesmo tempo. Só encontra sabor no que lhe é salutar; seu agrado, seu prazer cessa, onde a medida do salutar é ultrapassada. Inventa meios de cura para injúrias, utiliza acasos ruins em seu proveito; o que não o mata o fortalece. (...) Basta que me façam algo de mal, eu o "retribuo", disso esteja-se seguro: logo encontro oportunidade de expressar minha gratidão ao "malfeitor" (por vezes até pelo mal feito) - ou pedir-lhe algo, o que pode ser mais cortês do que dar algo... Parece-me também que a palavra mais grosseira, a carta mais grosseira, são ainda mais humanas e mais honestas do que o silêncio. Aos que silenciam falta-lhes quase sempre finura e cortesia do coração; silenciar é uma objeção, engolir as coisas produz necessariamente mau caráter - estraga inclusive o estômago. Todos os calados são dispépticos. - Veja-se que não desejo ver subestimada a grosseria, ela é, de longe, a mais humana, forma de contradição, e, em meio ao amolecimento moderno, uma de nossas primeiras virtudes. - Quando se é rico o bastante para isso, é inclusive uma fortuna estar errado. Um deus que viesse à Terra não poderia fazer senão injustiça - tomar a si não a pena, mas a culpa, é que seria divino. (Nietzsche - Ecce Homo)

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