É mais forte que eu, caros amigos. Uma pulsão que me compele. E sabem o que mais? O pior é que, por mais que me desagrade, eu vejo que, no fundo, têm razão. São mais antigos que eu e muito mais sábios, mas este fato é exatamente parte do meu problema. No fundo têm razão, mas eu vivo no raso. Sou raso. Uma vidinha rala e sem sentido que nunca obteve o grande destaque que achava que merecia. Céus, como desejei (e desejo) ser importante; ser único. Como quis (e quero) não me tornar esse ser medíocre que eu sou, esse anão repleto de contradições, que finge ser um poço de certezas. Ser perfeito? O melhor amigo do mundo inteiro? Agradar a todos, universalmente? “Tolas ambições”, vocês me dizem, e com razão, não canso de reconhecer. São, no entanto, as ambições que eu carrego.
Talvez eu nunca tenha saído da treva de minha própria idealização. Talvez por isso eu nunca tenha reconhecido o destaque que obtive e que merecia, por achar que merecia mais; eu queria mais e mais. Todas as atenções em mim! Idealizei tudo e não construí um lugar. Meu lugar é um não-lugar, pois lugar ideal, que nunca virá. Meu “eu” é o “eu” do futuro. Vivo em uma lacuna, um abismo. Brecha entre o que penso que fui e o que ardorosamente almejo ser. Mas, efetivamente, não sou nada. Meu hic et nunc é vazio. Que ontologia barata, Deus do céu! E logo eu que odeio a filosofia, prefiro outras disciplinas. Especialmente as que lidam com fatos, certezas e verdades. Como me aprazem!
Mas o fato, se é que há fatos e não apenas interpretações, é que hoje, aqui e agora, preciso me encontrar. Quando finalmente acho-me próximo daquele lugar que tanto desejei, e certamente marcado pelos elogios que busquei no exterior, perco-me novamente, pois meu mundo de certezas negativas, o mundo que eu conhecia, se fraturou. A ansiedade me consome. É como se o tempo se acelerasse, e a cada vez que eu apertasse o passo e corresse mais rápido eu pensasse: "posso alcançar meu ideal". Sinto-me, pois, como um burro de carga que anda a perseguir a cenoura que balança em sua frente, pendurada por uma vara presa a sua cabeça.
Mas, no processo, percebo que deixei cair minha “carga”. Perdi alguma coisa, e acho que era importante. Deixei algo para trás. Algo de muito peso que eu carregava sem nunca ter dado muita atenção ao que era, pois parecia ser tão óbvio... Tão natural. Sem esse objeto, que hoje desejo recuperar mas não sei se posso mais, eu pude correr mais rápido. Mas não possuo direção, corro sem saber meu destino. Apenas persigo aquele legume que pende a minha frente. E sinto como se eu só conseguisse acelerar. Sinto-me cansado.
É, caros amigos, perdi algo em minha busca pelo tal mundo idealizado. Abdiquei dele e, enquanto procuro meu “ser perfeito”, algo dentro de mim tenta recuperar essa “carga” perdida, deixada para trás em minha corrida. Esse objeto que se perdeu, que, provavelmente (ainda há esperança em minhas palavras!), está morto em algum lugar ou em lugar nenhum. E eu nunca o enterrei. Nunca dei a meu morto um funeral, nunca o enlutei. Meu “eu” passado tornou-se, pois, um fantasma a assombrar meu “eu” presente. Mas nada muda o fato (como sou atado aos fatos, não é fascinante?) de que as garantias e a autoridade para minha vida sempre vieram de fora, do ontem ou do amanhã. Nunca assumi a responsabilidade por mim mesmo.
Acho que por ter me tornado, também, muito desconfiado (e vaidoso, porque não) acabo supondo que há mais, muito mais, por trás do que me dizem. É mais forte que eu, sabem? Desconfio de cada silêncio, cada pausa, cada respiração que me dirigem. No fundo não quero acreditar. Mas preciso. Não conheço outra forma. E na minha cabeça há um ciclo vicioso que me leva à dúvida e dá asas a imaginação. Flerto com o impossível e construo demônios para meu mundo, faço-me de vítima. Mas não posso me certificar, a ilusão de segurança é momentânea, embora eu seja tão peremptório. Enfim, ou acredito piamente na opinião de outros e a eles delego toda autoridade, como sempre fiz, ou cedo às verdades demoníacas que eu construo no alto de minha paranóia. Dilema, dilema.
Havia (ou há?) ainda o desejo de ser notado, uma visibilidade também ideal. Hoje sou notado, sem dúvidas. Mas, obviamente, não como eu idealizei! Mas, em minha ânsia por visibilidade, tornei-me o centro das atenções, ou assim o suponho (ou desejo). Falo de mim na primeira pessoa, sempre. A menos que eu queira convencer alguém de minhas supostas certezas, é quando sou impessoal. Neste caso, lanço mão de estratégias aprendidas há muito. Glosa da fala de outros, é claro.
E, portanto, não sei como lidar com isso. Saí da escuridão, das trevas onde me situava. Ou então apenas criei treva sob a luz que desejava para mim; sombra que delineava meus traços. O ponto é: tornei-me visível. Para quem? Não faço idéia. Talvez para mim mesmo. E eu digo, a quem quiser dar ouvidos a um homem cansado de correr (e de si mesmo), “cuidado com o que desejam, seus desejos podem tornar-se realidade”; não poderia ser mais verdadeira esta lição.
Mas não há ainda como eu ter certeza sem romper algo que me manteve vivo todos estes anos. Busco ainda certezas e seguranças nas palavras que outros podem oferecer sobre quem eu sou. Essa é minha droga, vício e dependência maior. Só assim eu encontrei uma forma para tentar burlar meu hábito mais pungente: sempre me comparando, sempre buscando a mim mesmo como medida para todas as coisas. Eu nego a diferença. Sou auto-referente. Egocêntrico? Narcisista? Vaidoso? Sim, mas quem não é, ou não foi em algum momento? Perdão. Olhem só para mim, novamente tentando reduzir o mundo à minha perspectiva, minha personalidade e meus problemas. Perdoem, também, o ato falho, afinal peço-lhes que olhem “só” para mim! É que saio de uma treva para entrar em outra muito mais perigosa: a luz.
Sempre buscando a atenção, o reconhecimento, a autorização de outrem. Autoridade... eis o que eu procuro. Alguém que reitere meus atos, ontem ou amanhã. “O que vão pensar de mim?”, imagino eu em minhas agruras. Sempre me comparando. Talvez seja melhor fazer como os sábios de outrora e me calar. Silenciar para todo sempre. Não consigo ser eu mesmo. Não há personalidade, não há responsabilidade. Só emulação, cópia, mimese. Sou ainda um infante que vê a si mesmo como senil e ancião.
É, no fundo, sei que vocês têm razão, eu preciso de ajuda. Não sei quem sou. Estou perdido. Completamente nu e deitado no chão sob a luz que os holofotes lançam sobre mim. Todos os olhares se voltam para meu corpo frágil e imaculado. Mas não há ninguém ali, só o escuro. Só a minha imaginação...
Será?
Talvez eu nunca tenha saído da treva de minha própria idealização. Talvez por isso eu nunca tenha reconhecido o destaque que obtive e que merecia, por achar que merecia mais; eu queria mais e mais. Todas as atenções em mim! Idealizei tudo e não construí um lugar. Meu lugar é um não-lugar, pois lugar ideal, que nunca virá. Meu “eu” é o “eu” do futuro. Vivo em uma lacuna, um abismo. Brecha entre o que penso que fui e o que ardorosamente almejo ser. Mas, efetivamente, não sou nada. Meu hic et nunc é vazio. Que ontologia barata, Deus do céu! E logo eu que odeio a filosofia, prefiro outras disciplinas. Especialmente as que lidam com fatos, certezas e verdades. Como me aprazem!
Mas o fato, se é que há fatos e não apenas interpretações, é que hoje, aqui e agora, preciso me encontrar. Quando finalmente acho-me próximo daquele lugar que tanto desejei, e certamente marcado pelos elogios que busquei no exterior, perco-me novamente, pois meu mundo de certezas negativas, o mundo que eu conhecia, se fraturou. A ansiedade me consome. É como se o tempo se acelerasse, e a cada vez que eu apertasse o passo e corresse mais rápido eu pensasse: "posso alcançar meu ideal". Sinto-me, pois, como um burro de carga que anda a perseguir a cenoura que balança em sua frente, pendurada por uma vara presa a sua cabeça.
Mas, no processo, percebo que deixei cair minha “carga”. Perdi alguma coisa, e acho que era importante. Deixei algo para trás. Algo de muito peso que eu carregava sem nunca ter dado muita atenção ao que era, pois parecia ser tão óbvio... Tão natural. Sem esse objeto, que hoje desejo recuperar mas não sei se posso mais, eu pude correr mais rápido. Mas não possuo direção, corro sem saber meu destino. Apenas persigo aquele legume que pende a minha frente. E sinto como se eu só conseguisse acelerar. Sinto-me cansado.
É, caros amigos, perdi algo em minha busca pelo tal mundo idealizado. Abdiquei dele e, enquanto procuro meu “ser perfeito”, algo dentro de mim tenta recuperar essa “carga” perdida, deixada para trás em minha corrida. Esse objeto que se perdeu, que, provavelmente (ainda há esperança em minhas palavras!), está morto em algum lugar ou em lugar nenhum. E eu nunca o enterrei. Nunca dei a meu morto um funeral, nunca o enlutei. Meu “eu” passado tornou-se, pois, um fantasma a assombrar meu “eu” presente. Mas nada muda o fato (como sou atado aos fatos, não é fascinante?) de que as garantias e a autoridade para minha vida sempre vieram de fora, do ontem ou do amanhã. Nunca assumi a responsabilidade por mim mesmo.
Acho que por ter me tornado, também, muito desconfiado (e vaidoso, porque não) acabo supondo que há mais, muito mais, por trás do que me dizem. É mais forte que eu, sabem? Desconfio de cada silêncio, cada pausa, cada respiração que me dirigem. No fundo não quero acreditar. Mas preciso. Não conheço outra forma. E na minha cabeça há um ciclo vicioso que me leva à dúvida e dá asas a imaginação. Flerto com o impossível e construo demônios para meu mundo, faço-me de vítima. Mas não posso me certificar, a ilusão de segurança é momentânea, embora eu seja tão peremptório. Enfim, ou acredito piamente na opinião de outros e a eles delego toda autoridade, como sempre fiz, ou cedo às verdades demoníacas que eu construo no alto de minha paranóia. Dilema, dilema.
Havia (ou há?) ainda o desejo de ser notado, uma visibilidade também ideal. Hoje sou notado, sem dúvidas. Mas, obviamente, não como eu idealizei! Mas, em minha ânsia por visibilidade, tornei-me o centro das atenções, ou assim o suponho (ou desejo). Falo de mim na primeira pessoa, sempre. A menos que eu queira convencer alguém de minhas supostas certezas, é quando sou impessoal. Neste caso, lanço mão de estratégias aprendidas há muito. Glosa da fala de outros, é claro.
E, portanto, não sei como lidar com isso. Saí da escuridão, das trevas onde me situava. Ou então apenas criei treva sob a luz que desejava para mim; sombra que delineava meus traços. O ponto é: tornei-me visível. Para quem? Não faço idéia. Talvez para mim mesmo. E eu digo, a quem quiser dar ouvidos a um homem cansado de correr (e de si mesmo), “cuidado com o que desejam, seus desejos podem tornar-se realidade”; não poderia ser mais verdadeira esta lição.
Mas não há ainda como eu ter certeza sem romper algo que me manteve vivo todos estes anos. Busco ainda certezas e seguranças nas palavras que outros podem oferecer sobre quem eu sou. Essa é minha droga, vício e dependência maior. Só assim eu encontrei uma forma para tentar burlar meu hábito mais pungente: sempre me comparando, sempre buscando a mim mesmo como medida para todas as coisas. Eu nego a diferença. Sou auto-referente. Egocêntrico? Narcisista? Vaidoso? Sim, mas quem não é, ou não foi em algum momento? Perdão. Olhem só para mim, novamente tentando reduzir o mundo à minha perspectiva, minha personalidade e meus problemas. Perdoem, também, o ato falho, afinal peço-lhes que olhem “só” para mim! É que saio de uma treva para entrar em outra muito mais perigosa: a luz.
Sempre buscando a atenção, o reconhecimento, a autorização de outrem. Autoridade... eis o que eu procuro. Alguém que reitere meus atos, ontem ou amanhã. “O que vão pensar de mim?”, imagino eu em minhas agruras. Sempre me comparando. Talvez seja melhor fazer como os sábios de outrora e me calar. Silenciar para todo sempre. Não consigo ser eu mesmo. Não há personalidade, não há responsabilidade. Só emulação, cópia, mimese. Sou ainda um infante que vê a si mesmo como senil e ancião.
É, no fundo, sei que vocês têm razão, eu preciso de ajuda. Não sei quem sou. Estou perdido. Completamente nu e deitado no chão sob a luz que os holofotes lançam sobre mim. Todos os olhares se voltam para meu corpo frágil e imaculado. Mas não há ninguém ali, só o escuro. Só a minha imaginação...
Será?
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