Sim. Tens razão. Mas, se serve de consolo, não estás sozinho. Repetimos. Eis o que fazemos. Repetimos a nós mesmos e uns aos outros incessantemente. Isto é só o que fazemos. E só o fazemos por estarmos presos, acorrentados! Mas não se engane, não se deixe ludibriar pela leitura num dia de angústia que te encontras em crise com esta prisão. É só o dia que está nublado, não nossa visão! A liberdade para “dizer algo” ou “ter algo a dizer” é já uma prisão. Liberdade não é o vale tudo. Somos muito menos criativos do que supõe nossa vaidade ou queremos acreditar. E se a linguagem nos leva a dissimulação, não culpemos a linguagem e sim aos seus detentos, por escolherem mal! A liberdade só existe se e quando dentro de um jogo com regras claras e compartilhadas. Este jogo nos antecede e nos ultrapassa, e é claro que seu resultado nunca está dado. Não há liberdade individual completa, ideal, autônoma. Seria este também um dos fantasmas da modernidade a nos assombrar? Ser livre é estar preso. Liberdade e prisão não são conceitos opostos, são sinônimos. Queres falar? Responder até? Se o fazes (ou não) é por ser detento desta prisão. Nomeá-las enquanto tal ou qual é já lhes dar cores dentro deste jogo. Esta prisão que mantém a mim e a todos acorrentados. Por que lamentas a prisão em que vives se graças a ela tens um pão a alimentares tua alma? Até quando pensamos se queremos dizer (ou não) algo já o fazemos de dentro da prisão.
A outra face desta moeda, não podemos esquecer, é o falar para alguém. Sempre nos dirigimos a alguém. Se quisermos depositar alguma crença na idéia de liberdade (ou na de prisão) que o façamos na expectativa de um leitor. Pois somos leitores. Muito mais do que escritores. Lemos uns aos outros. Repetimos, é verdade, mas sempre do nosso jeito. Reproduzimos as leituras até que nos “conscientizamos”, se quisermos acreditar na consciência, que estamos acorrentados a uma chave de leitura sempre mutante, mas, ainda assim, presos a nós mesmos e aos outros. Haveria a consciência da inocência neste ato? Seria essa “consciência” dada a nós a partir de um determinado momento; uma epifania quem sabe? Ou Deus, talvez? Não deixemos que um momento em que a esperança declina (e nossas poucas certezas vergam) diante das asperezas de uma idéia negativa de prisão que, no limite, é só o que temos entre nós. Não nos enganemos achando que somos mais do que simplesmente ingênuos e, por isso, melhores. Acorrentados, sim! A liberdade que dá asas a nossa imaginação também nos aprisiona a nós mesmos e aos nossos leitores. Sempre estaremos presos a falar de nós mesmos e sempre para alguém. Seja a ficção mais desvairada ou o elogio mais cabotino, a crítica mais ácida ou a lágrima mais sincera. Talvez seja ingenuidade minha, contudo não me cabe reconhecê-lo agora. Mas apesar de tudo, sim, tens razão. Entretanto, se serve de consolo, não estás sozinho: estamos todos presos.
A outra face desta moeda, não podemos esquecer, é o falar para alguém. Sempre nos dirigimos a alguém. Se quisermos depositar alguma crença na idéia de liberdade (ou na de prisão) que o façamos na expectativa de um leitor. Pois somos leitores. Muito mais do que escritores. Lemos uns aos outros. Repetimos, é verdade, mas sempre do nosso jeito. Reproduzimos as leituras até que nos “conscientizamos”, se quisermos acreditar na consciência, que estamos acorrentados a uma chave de leitura sempre mutante, mas, ainda assim, presos a nós mesmos e aos outros. Haveria a consciência da inocência neste ato? Seria essa “consciência” dada a nós a partir de um determinado momento; uma epifania quem sabe? Ou Deus, talvez? Não deixemos que um momento em que a esperança declina (e nossas poucas certezas vergam) diante das asperezas de uma idéia negativa de prisão que, no limite, é só o que temos entre nós. Não nos enganemos achando que somos mais do que simplesmente ingênuos e, por isso, melhores. Acorrentados, sim! A liberdade que dá asas a nossa imaginação também nos aprisiona a nós mesmos e aos nossos leitores. Sempre estaremos presos a falar de nós mesmos e sempre para alguém. Seja a ficção mais desvairada ou o elogio mais cabotino, a crítica mais ácida ou a lágrima mais sincera. Talvez seja ingenuidade minha, contudo não me cabe reconhecê-lo agora. Mas apesar de tudo, sim, tens razão. Entretanto, se serve de consolo, não estás sozinho: estamos todos presos.
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