domingo, 6 de setembro de 2009

As lágrimas de Demódoco


- “Evoé!”, louvava Demódoco. Embriagados, todos aplaudiram. E ele cantava sobre a curiosa, traiçoeira e fria noite daquelas paragens a abrigar navegantes e andarilhos até que, desviado de sua canção, trouxe aos viandantes seu silenciar. Estupefato, ouviu o anunciado. Seguido de um inquietante despertar; fez-se o seu silêncio - mais do que impremeditado. Algo residia, pois, além do luar que os encobria sob a fina bruma. Ninguém percebeu, mas o aedo sabia que a bela imortal ao seu lado dançava, cantava e encantava. Rodopiava com lira em mãos enquanto o velho Demódoco apenas esperava. Porém, em seus olhinhos deliciosamente maliciosos, imaginava o velho homem, anunciava-se algo além do olhar.

Seu público aguardava os ensejos, desejos e segredos, mundanos e divinos, que iluminariam seus olhares na noite escura. Olhos que o ancião não possui, pois cego de nascença, mas para os quais já cantara muitas vezes. Seus próprios olhos, se funcionassem, seriam como espelhos, a refletir a inspiração do que não vê... Contudo, há trevas apenas. E o ancião espera, enfim, o som da salvação, que quebre o silêncio nas trevas que antecedem à inspiração e que o rodeavam desde o anunciado. Quando finalmente escuta, sabe o que fazer. E lança ao mundo as palavras que cantam sombras de promessas nunca feitas; de encontros jamais cumpridos; da perda do que nunca se teve. O ancião ouve e fala, porém espera, "há mais... Tem de haver!", exaspera em ansiedade.

E espera... Não mais por palavras de inspiração, mas de redenção. Para cantar aos homens a visão daquela que tudo sabe e tudo vê e poder respirar novamente, aliviado. As palavras esperadas não vêm. Mas a sina e a tragédia do aedo é cantar, não pode escolher; não pode esconder. E assim revela a todos o seu próprio fim. Narra palavras que não são suas, mas a seu respeito. Canta só o que ouve, e este já não escuta mais nada. As últimas palavras rezavam o fim da verdade, que morreu na lágrima do herói dias atrás. O tempo do aedo terminara ali, naquela praça. Resignado, não verteu uma lágrima sequer. À última verdade ouvida seguiu-se a primeira mentira cantada por um homem que já não seria inspirado, nunca mais: que os aedos não choram. Deixam as lágrimas aos heróis presentes e passados, dos quais cantariam as agruras e aventuras. "Que façam bom uso", encerrava amargurado enquanto se recolhia sozinho em um canto só dele.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Verdade seja dita: quem ri por último...


Meu velho pai dizia que somos nós mesmos quem criamos nossas próprias verdades. Costumava comentar que o fazemos para darmos sentido àquilo que não compreendemos, pois nosso verdadeiro prazer reside na compreensão. “Somos as criaturas mais vaidosas do planeta”, dizia ele. “A única coisa de que gostamos é de nos sentir inteligentes. Como não somos nada além de um monte de “Homo Narcisicus”, ele costumava brincar, “inventamos nossas verdades para ficarmos de bem conosco e com nosso ego lá no alto”.

Eu não entendia bem sua fala. Ele bebia demais às vezes. Mas ficava muito risonho, muito brincalhão, nunca ficara agressivo. Dizia que a ignorância era minha bênção em meio a tantos intelectos e intelectuais. Meu semblante sério era algo digno de piada. Mas pai é pai. E, com paciência de Jó, ele tentava me explicar que aquilo era só bate-papo, que não era importante, senão para uma meia-dúzia. Era tudo uma piada ou, como ele gostava de dizer, “um chiste”.

Um dia ele me parou com olhar atônito e não sorria mais.

- “Somos paradoxos ambulantes”, ele disse. “E, no entanto, não somos nada além do que dizemos ser e isso muda todos os dias”.

Eu tinha 18 anos e retrucava que não estava entendendo nada daquilo, mas, no fundo, já suspeitava para onde a prosa caminhava. Seus últimos exames médicos diziam que ele perdia rapidamente a visão, sem qualquer possibilidade de tratamento.

Dia a dia ele entristecia. Dizia que não se podia confiar em ninguém antes de confiar em si mesmo. Que o resto viria com o tempo e que eu devia ter senso de humor, sempre. Não levar nada a sério demais, nem a ele e nem a mim mesmo.

Eu perguntava se aquilo não era um contra-senso. E ele dizia apenas: “somos paradoxos ambulantes, ainda que tentemos fingir não o ser”.

- “A vida é uma comédia solitária, filho. Ria muito, o mais que puder. Ria de tudo, aproveite, mas saiba que teu riso será sempre só teu e de mais ninguém - assim como o de cada um é só deles. Enquanto sorrires viverá. Mas saiba que no final a vida se torna, também, uma tragédia. E essa tragédia garantirá um último sorriso – mas esse não nos pertence.”

Não me sentia solitário. E eu dizia que não poderia abandoná-lo para uma vida tão miserável. E ele respondia que já estávamos sozinhos. Aquilo que vivíamos era pura ilusão de uma verdade criada há muito tempo e convenientemente compartilhada por ermitões que acreditam estarem cercados de amigos, parentes, enfim, de outros.

- “Às vezes”, dizia ele, “esbarramo-nos nas entrelinhas e nos não-ditos. De vez em quando isso acontece, tropeçamos uns nos outros, como cegos a tatear o nada em busca de um abrigo que não existe... Que nunca existiu”.

Seu semblante mudara, tornara-se mais sombrio, como que se distanciando de algo, ou de tudo e todos.

- “Temos conosco a certeza de não sermos sonhadores. Que ilusão! Esta voraz certeza nos consome. Apesar de tudo, estamos sós no redemoinho do mundo. Sem sentido, sem rumo nem prumo. Eis o nascimento da verdade: nossa maior mentira. Da cegueira mais pura que fizemos nossa única visão. Da máscara que é nossa face. É fuga, erro. Lembrança a nos atormentar. Mas quem poderia nos culpar? Quem poderia culpar o desvio desvairado de atenção... Escolher amar a verdade permite esquecer que não sabemos absolutamente nada... Seria a verdade a mãe da maior das mentiras? Talvez. Mas verdade seja dita, filho, somente ela sorri para nós... E só no final”.

Silenciou de repente. Ficou semanas quieto, mudo. Até que um dia, com um sorriso amarelo no rosto, pôs-se a fitar meus olhos e, num gesto gentil, pediu que eu me sentasse. Ali, naquele sofá rasgado e queimado pelas guimbas de cigarro, meu pai, hoje já falecido, contou-me uma história... Seu swan song...

Um cego ancião, maltrapilho e cambaleante, caminhava pelas ruas a balbuciar coisas consigo mesmo. Há décadas perambulava por aquelas ruas sem dizer uma única palavra. Tinha sido um grande ator e exímio comediante no passado. Mas de súbito perdera sua visão e desde então não via mais graça no mundo. Ao romper seu silêncio, balbuciava consigo que seu passado lhe rendia belas imagens, cada vez mais cintilantes. E que seu futuro armava o cenário para o inevitável. Mas, ao contrário de todos, ele aguardava ansioso pelo derradeiro fim. Eis que, então, o velho ator pôs-se a gritar:

- “Venham, venham todos! É hora do espetáculo! Cheguem perto que eu lhes conto como é a verdade!”

Da pressa cotidiana que costuma regrar e ritmar os passos dos transeuntes, olhos se voltam para o velho cego e, lentamente, se aglomerou uma pequena multidão ao seu redor.

- “Sim, sim, vejo que vocês também a procuram”.

Ele se aproximava de algumas pessoas e com gestos hiperbólicos fazia caras-e-bocas. Tateava-os, dizendo:

- “Sois jovens e esbeltas, posso ver bem! Estaria ela entre nós? Seria você, bela jovem, a nobre verdade? Ou você, minha dama, por acaso?”

Ao encontrar o rosto de um homem imberbe e perguntar se ele seria a verdade, arrancara muitas risadas do público.

- “Pois lhes digo uma coisa... Falo com aqueles que ainda enxergam: cuidado! A verdade está à solta! Deve estar entre nós. Eu mesmo a conheci aqui nesta praça décadas atrás. Ela é jovem, linda, altiva, segura de si e de olhar penetrante. Porém, não se enganem: é arredia... É necessariamente livre e ela não se entrega duas vezes ao mesmo homem. Seu feitiço se instala de uma só vez, em um único e inesquecível beijo. Um apenas é o bastante. Beijo há muito aguardado. Daqueles dignos de um primeiro encontro: ardente e seco. Ardente de vontade, ansiedade, desejo. Seco, porém, pelo nervosismo da estréia, pela expectativa do próximo e da propriedade daquela que jamais possuirá”.

Ele fazia beiços e mostrava língua simulando um beijo cômico. Todos riam do velho homem. Suas artimanhas e gesticulações traziam lágrimas de riso aos olhos dos mais sérios.

Havia de fato algo de risível nas marcas trazidas em seu corpo, objeto do olhar alheio. Mas ali pareciam figurino de uma peça teatral.

Já cansado e com dificuldades para se mexer, seguia falando. Falava de suas lembranças e da esperança de se encontrar com sua bela amante, há muito perdida, mas nunca esquecida. “Ah!”, ele suspirava, “a bela verdade”. E seguia gritando:

- “Ouçam, ouçam todos! Escutem as palavras de um homem que dedicou sua vida inteira a reencontrá-la”, continuava ele. “Como a amei. Buscava-a cegamente... Dia e noite. Sua imagem estonteante, descomunal, seduziu-me em um olhar apenas. Num primeiro beijo me entreguei. Ela, indomável como o sol, no brilho de sua beleza cintilante, ofuscou meus olhos, que fechei durante nosso primeiro e último beijo, para jamais abri-los novamente. E ela desapareceu, para nunca mais voltar”.

Ele puxou de seus trapos um buquê de flores amassadas, arrancando mais risos do público. E dizia que finalmente a encontraria hoje.

Eis que o velho bufão deu uma cambalhota, um salto e de súbito deitou-se na rua. Semblantes de assombro e preocupação diante de tamanhas peripécias de um homem tão idoso arregalaram os olhos de todos os presentes. E ele levantou parte de seu corpo, para o alívio de todos que riram bastante. Deitou-se novamente, contudo. Abriu seus braços como se fosse abraçar alguém. Moveu-se um pouco mais. Tudo parte do espetáculo, ou assim parecia. Até que parou.

Os olhos ainda mareados de lágrimas dos espectadores estavam atentos, pois aguardavam o anúncio do fim de uma peça. Aguardavam o momento do aplauso redentor que os libertaria daquela angústia. Mas o sinal nunca veio. O tempo passou e a comédia da vida do velho cego revelara-se tragédia. Aos poucos as lágrimas secaram. Um a um saíam de cena. Depois dois, três, até que restou apenas uma pessoa. Uma única mulher, muito bela, porém sozinha. Ela sorriu para a tragédia que é ver a vida deixar o corpo de um homem, ainda mais de forma tão solitária, mesmo em meio à multidão.

Altiva e muito exuberante, coisa de mulher muito vaidosa, seu sorriso demonstrava compreensão. Entendia que a vida é comédia até o fim, a tragédia fica para os vivos. Quando, sem pompa tampouco circunstância, sem conhecer uma lágrima de tristeza nos olhos de qualquer um, simplesmente deixamos de existir.

A bela mulher, com o sorriso nos lábios, aplaudiu o falecido homem – que, no derradeiro fim, seu canto do cisne, reencontrara sua amada.

Ela, ainda sorrindo, pôs-se a caminhar... E seguiu em busca de novos amantes.


domingo, 10 de maio de 2009

Arrebatador


"Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar".

(Carlos Drummond de Andrade)



Por que choramos?

Já me surpreendi indagando sobre isso algumas vezes. Chorar...

Choram as crianças, os bebês e recém-nascidos. Choramos por conta de um arrebatamento. Alegria ou tristeza. Algo que nos retira de um certo cotidiano e nos lança, de maneira violenta ou abrupta, no não-saber. Arrebatador, pois somos incapazes de lidar com tal sentimento, torná-lo compreensível. A insegurança, o temível despertar de um sonho bom para um pesadelo em vida. Ou então, uma alegria de viver incomensurável. Todas formas arrebatadoras que nos lançam às lágrimas.

Choramos, pois, quando não temos palavras para comunicar, nomear ou significar uma experiência. Eco de nosso primeiro instinto e ação no mundo dos vivos, quando recém-nascidos. Chorar é a primeira demonstração de vida, primeira forma de comunicação, anúncio de uma chegada. Porém, crescemos, amadurecemos, endurecemos... Tornamo-nos, pois, duros e, para cada um destes sentimentos que desenvolvemos, o aprendizado de um equivalente, sempre pobre demais para lidar com o que sentimos em nossa alma e que nos faz quem somos. Aprendemos palavras que, de certa forma, confundimos com nossas emoções... Amor, ódio, raiva, afeto, ternura, dentre outras... Ledo engano. Sentimentos são e serão sempre maiores do que nossas meras palavras. Mas, por outro lado, não possuímos outra forma para significar nossas emoções. Errar, entrementes, é preciso. Errar entre sentidos e significados. Errar, pois entre palavras há o abismo - no qual nos encontramos - entre estas e nossos sentimentos.

Mas há momentos, contudo, em que nossas palavras - que não são bem nossas, mas que delas nos apropriamos para nos comunicar, termos algo em comum com outros ao nosso redor - não encontram seu lugar. Às vezes, o silêncio é só o que nos resta e a solidão de um silêncio é também arrebatadora. Não conseguir comunicar nos desperta daquele sono atávico que nos constitui enquanto seres falantes, comunicantes e, por isso mesmo, de certa forma, arrogantes de nossa capacidade de construir sentido. Lança o homem ao universo de sua primeira infância. Lembramos daquilo que foi travestido com muitas palavras, umas mais outras menos rebuscadas. Palavras essas que criamos para esquecer nossa condição. Que desenvolvemos ao longo da vida como artifício para não mais chorar.

Por vezes, não encontramos palavras que traduzam - e é importante que lembremos que toda tradução é sempre traição - nossas emoções... Então choramos. Chorar é nosso elo com o que há de mais primordial e universal no homem. Seus sentimentos e a necessidade de torná-los compreensíveis, para si mesmo e para os outros, ainda que não necessariamente nessa ordem. Sentimentos muitas vezes contraditórios e paradoxais que nossas palavras, substantivas ou adjetivas, resumem e unificam, qualificam ou desqualificam, tornam uno e um apenas. A força destas palavras reside na paz de espírito, na tranqüilidade com que vivemos e nos comunicamos. No entanto, resta tão pouco de nossas lágrimas. Esquecemo-nos de chorar com maior freqüência. Para muitos chorar tornou-se equivalente de um artifício lingüístico, uma palavra, que muito sintomaticamente nos afasta de nosso choro primordial: vergonha... Chorar causa, hoje, em meio às palavras, estranhamento. Chorar tornou-se um ato em si arrebatador. Curiosa situação.

Chorar... Esse momento, cuja beleza reside, muitas vezes, na sua indescritível e indizível condição única de recordar que somos, também, crianças tentando compreender o mundo estranho ao nosso redor. Chorar... Choramos, pois viver é arrebatador.

Mas estas são apenas palavras de alguém no mundo. Não choro ao redigi-las. Provavelmente choraria se não as conseguisse comunicar. Mas isto é já interpretação, tradução e artifício. Hipóteses de um artesão das palavras.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Canta o Proteiras... Hino ao Agoge


Irmãos... Bem vindos à Vida.

Anos se passaram, é chegada a hora de tomar tenência. Deixai, pois, o choro materno, o suplício pela permanência entre os fracos. A hora desses já passou. Os deixamos pelo caminho, sem remorso, sem olhar para trás. A eles... O esquecimento. Entre nós, seu nascimento mesmo seria um crime; eles não estão aptos à Vida. Impensável ofensa aos deuses e a nossos pais e irmãos. Que nossos encontros se dêem sempre no campo de batalha, pois, de nossa parte, deixaremos pilhas de corpos pelo caminho. Honramos a Vida. E o faremos ceifando a vida daqueles que se atrevam a cruzar nosso caminho e ousem atacar nossa honra.

A hora de vossa educação começou: o vale-tudo, a violência, por um lado; por outro, o sentido para vossa existência, a honra e o código espartano. É o momento do amadurecimento. Endurecer é preciso. Ao final, não derramaremos uma lágrima sequer. Nossos olhos secarão. Choram as mulheres, choram os bebês. Hoje choram os pequenos, recém-nascidos. Amanhã vocês serão homens, soldados. A sede, o suor e o sangue vos reclamarão cada um dos elementos que nos dão a Vida. E com vida lhes retribuiremos.

Chiamastigosis: punição pelos vossos erros... E acertos também. Flagelo exemplar, público e ritual de passagem. Lugar de separar os homens dos meninos. Nosso “treinamento” é duro, ríspido, porém simples e justo. Poucos caíram diante dos muitos sobreviventes. A Vida é assim. A nós não é dada a escolha, a derrota não é uma opção: nunca retroceder, nunca se render. Vitória ou glória eterna, a Vida eterna. Sem vitória ou a glória, apenas a desgraça.... O esquecimento.

Alguns julgam mal nossa vida, nossa educação. Eis que lhes apresento os fracos, os “bons”, os tolerantes. Aqueles que irão recorrer aos nossos olhos, nossos braços e pernas, nossa astúcia e treinamento quando suas esperanças se esvaírem ou o desespero das mulheres lhes consumir os espíritos.

Meus irmãos, nosso código de conduta é a força, o instinto brutal que a natureza nos legou para preservar a própria Vida, nossos irmãos e mulheres, filhos e filhas. Estar vivo é ousar Ser vivo. Não somos animais, apenas nos preparamos para enfrentá-los como iguais. Hoje entenderão isso. Código de guerra: somente declaramos guerra aos iguais! E que o melhor preparado vença. Todos sabemos quem são os melhores, os mais preparados.

Vossa caminhada, que se inicia hoje, ainda vos renderá a ternura para tratar vossas mulheres quando a hora chegar, honrar nossos deuses, matrimônio e até mesmo nossos inimigos. Caminhemos, marchemos para a vitória ou a glória eterna, sorrindo e cantando, lutando em campos próximos ou distantes para defender aquilo em que acreditamos e aqueles que amamos.

Mas esse dia ainda não chegou. Hoje, o primeiro dia do resto de vossas vidas, começa vosso treinamento. Hoje aprenderão a viver... E tudo tem o seu preço. Hoje sofrerão. E sofrerão amanhã e depois e pelo resto de vosso aprendizado. Para que possam se tornar homens honrados. Homens que dão valor aos mais ínfimos prazeres e sentimentos e sabem que a vida é a única benção que podemos ter. Neste dia, regozijarão, pois terão aprendido a viver. Até lá, padecerão com a educação espartana. Sorriam, pois, meus jovens! Pois a Vida é saber sorrir diante da dor, do espancamento e da batalha. Aprendam, pois, a viver, para saber morrer com honra quando a hora chegar.

Hoje sangrarão pela primeira vez. E eu lhes garanto que não será a última. E por três vezes repetirão nosso grito de guerra...

Bem vindos à Vida!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Cogito ergo [non] sum


- Sobre o que conversávamos?


- Sim, quero saber por que estamos ambos aqui?

- É verdade. Outrora nossas conversas foram mais simples. Ou estávamos mais descansados? Esquecemo-nos desta época?

- Que época?

- Bom, ousaríamos afirmar que seja tudo uma mentira? Uma ilusão passageira e sempre mutante.

- Não me venhas com suas vãs filosofias. Bem o sabes que as detesto. São hipócritas, retóricas, obtusas e quase sempre inconvenientes.

- Ora, deixemos disso. Se não quiséssemos tais “filosofias”, como as chamamos, por que estaríamos aqui?

- Não tenho mais ninguém, sabes bem disto.

- Pois temos muitos mais... Outros virão, estejamos certos.

- Como assim?

- Falávamos de uma mentira, certo?

- Certo.

- Pois bem, que é uma mentira, nisso concordamos, correto?

- Disso não tenho tanta certeza. Mas prossiga.

- Bom, estamos aqui. No entanto, procuramos uma âncora. Uma certeza imutável. Algo de monolítico que nos torne parte de algo maior, que nos faça pertencer a algum lugar. Que não seja este lugar no qual no encontramos, certo?

- Bem, hã... Seria isso a identidade?

- Poderíamos chamar de identidade.

- E em que medida isso seria uma mentira?

- A identidade é um ideal. Ideais nunca são alcançados. Eles restringem nossa visão e horizontes sempre mutantes. Torna-se mentira, pois identidade lança o múltiplo e o plural no uno e indivisível. Isto é, tudo o que não somos. Como é de se supor, um único continente não consegue comportar muitos conteúdos diferentes. Eventualmente transbordamos. E eis que nos encontramos aqui.

- Como assim, isso significa que sou louco? Que eu não existo?

- Talvez... Enquanto sujeitos, “eu” e “você” não existimos, não Somos. Somente nos tornamos quando juntos. Sendo em paralelo.

- Não entendi nada. Eu sou o que mesmo? Um esquizofrênico?

- Não. Você não É.

- Nada... Eu não sou nada?

- Somos apenas enquanto somatório de múltiplas personalidades. Esse “indivíduo” que visamos construir a partir de uma identidade é uma ilusão, uma mentira. Somente poderemos existir enquanto pluralidade. Multiplicidade, diferença. Não existe só um eu, ou um você. Somos apenas em conjunto. Eis a mentira da identidade. Ela cala nossas vozes, violenta nossas almas e exige nosso silêncio. Isso quando não é inteiramente cega... Cega sobre o(s) Outro(s).

- Que outros? Outros como eu?

- Não, diferentes.

- Quanto diferentes?

- Infinitamente diferentes.

- Melhores ou piores?

- Nem um nem outro. Apenas diferentes.

- Bom, mas se há outros em nós, como você fala... Digo, em nós mesmos, e há outros por aí, que, mesmo sendo diferentes, têm múltiplos de si, ainda assim temos algo em comum. Pertencemos a um gênero que nos une, não? Há uma identidade, no fim das contas, não?

- Ora, sim e não. Sim, pois somos humanos, ainda que o conceito de humano seja uma abstração bastante elástica e permita comportar a todos nós. E se comporta a todos, não distingue nenhum. E não, porque nem sempre as pessoas se reconhecem a si mesmas como muitos, devido à complexa experiência em que a imensidão de “eus” nos insere. Ao nos lançar na pluralidade, ficamos perplexos.

- Eu estou perplexo.

- Por isso buscamos a identidade. Ela é um porto seguro diante da perplexidade, da insuficiência de respostas, da insegurança, da incerteza. Por isso, também, acreditamos ficar perplexos. Achamos que tudo isso é novidade para um suposto “eu”, quando em algum lugar já sabíamos disso. Já havíamos escolhido fingir não saber. É a mentira que eventualmente nos constitui.

- Não entendi.

- Essa é a questão. Normalmente escolhemos antes de saber o porquê de nossa escolha. A jornada recomeça na tentativa de entender, ou re-significar, a nossa escolha.

- Mas tem de haver um elo que reúna essa multiplicidade toda, não é possível!

- Estamos dialogando, não?

- Sim.

- Bom, ou isso é o fracasso da identidade, ou um claro sinal de que a insanidade já nos alcançou.


- Ou ambos, certo?

- É.

- E o que posso fazer? Como driblar a insanidade?

- Podemos abraçar o fato de que somos muitos e o mesmo. Podemos viver uma vida dupla, tripla, quádrupla... Infinitamente plural. Mas sem que isso se torne patológico. Senão não seremos sinceros. Viveremos diferentes vidas, porém uma de cada vez. E isso seria novamente mentira.

- Como assim?

- Isso não nos abriria aos outros, às diferenças, às muitas possibilidades que nos fazem quem somos, quem nos tornamos e como viemos a ser. Isso faria de nós pessoas hipócritas, necessariamente loucas, que não se restringem a uma vida, mas somente podem viver uma vida de cada vez, dentro da pluralidade. Isso seria bem insano. Normalmente esse uno (a cada momento) assume-se como o "Bom", o "Certo", o "Caminho" e a "Verdade". Mas não somos esse “um”. Somos muitos. Esses muitos caem freqüentemente em contradição com a unidade indivisível do “ser um”. Perseguimos o uno e não o atingimos. Talvez isso sim seja insano, pois pode se tornar muito frustrante. No ritmo enlouquecedor do mundo, tornamo-nos violentos, depressivos, melancólicos, psicóticos, neuróticos, viciados etc., pois não podemos lidar com o fato de que aquilo que perseguimos é uma mentira.

- E o que fazer?

- Estamos dialogando, certo?

- Sim.

- Isso significa que estamos tentando achar respostas.

- [Hurm]...

- Ergo, achamos que, pelo menos inicialmente, podemos abrir uma janela à chamada “loucura”. Não custa nada. Vejamos o que entra por ela. Quem sabe alguma luz, para começo de conversa.

- Quem sabe algum maníaco, assassino, psicopata?

- É...

- É o que?

- O(s) “Outro”(s) assusta(m), não? A possibilidade da diferença. Do estranhamento. Não saber, pois é diferente.

- Não é que eu tenha medo... É que...

- Bom, podemos ver a tudo isso como uma aventura. Se quisermos pensar por um lado positivo. E essa possibilidade é bastante sedutora, convenhamos.

- E assustadora.

- Ah... Sim, mas só há um jeito de descobrir.

- Creio que sim. Mas e se eu quisesse fazer com que sua voz se calasse?

- É difícil abrir mão de si, não?

- Muito.

- Bom, a jornada continuaria. Ela sempre continua, independentemente das escolhas que efetuamos. Quer dizer, se quisermos crer em um suposto e muito duvidoso “você” e um “eu”, que assim seja. Nesse caso, e nele apenas, só o seu "tu" poderá operar essa ação.

- Como assim?

- É preciso muito esforço para manter caladas as vozes que te(me)mos. Elas nos gritam incessantemente. No máximo, o que conseguimos fazer é, em meio à cacofonia de vozes sobrepostas, desviar a atenção para apenas uma. Ou então tentar abstrair do ruído ensurdecedor e criar algum foco, seja ele qual for. Já o tentamos anteriormente.

- Essa seria a identidade?

- A mentira.

- Deve ser muito difícil.

- Talvez, pois é labuta incessante. Eventualmente nos cansamos e cedemos.

- Como em sonhos?

- Sim, pois nos sonhos as vozes também nos falam. É apenas difícil decodificá-las, pois somos sempre muito seletivos com aquilo que queremos ouvir. Principalmente em nossos sonhos.

- Parece que sim.

- Outra forma de lidar com o cansaço é a chamada insanidade. Simplesmente exauridos do trabalho de calar, desistimos. Simples assim: fadigados, nos entregamos à audição das mais diferentes vozes, que nos soam estranhas, pois nunca as ouvimos anteriormente. São balbucios de vozes nunca d’antes ouvidas, decodificadas ou significadas. Por isso não costumam fazer sentido. São vozes que não dialogam entre si, como estamos fazendo agora. Nada em comum, nada em comunicação. Perderam o fio da meada. São estanhas e estrangeiras. Como uma Torre de Babel.

- Então deveria haver um elo entre essas vozes, digo, as vozes dos outros? Algo como uma identidade?

- Não necessariamente... Bom, deverá haver um espaço para o diálogo. Somente nesse diálogo poderemos Ser.

- E se não houver?

- Bom, talvez a insanidade nos alcance. Ou o vício, o suicídio, a identidade. Pois, as vozes continuarão a falar, gritar e balbuciar quaisquer coisas que venham às suas bocas. Na hora, da forma e para quem bem entenderem. Eventualmente isso nos isolará do mundo. Acostumamo-nos a viver sob a aparência de uma identidade monolítica. Ela está habituada a falar através de uma única voz, a “verdadeira” voz. E a ouvir um único som, o da própria voz. A voz que considera ser a da razão.

- Colocando dessa forma, acho que temo a insanidade.

- Ah! Agora sim, reconhecemos o medo e o temor que nos aflige. É um bom começo. E o que é insano?

- Até o momento, para mim, “insano” era falar sozinho, elaborar perguntas e respondê-las logo em seguida, certo?

- Como assim sozinho?

- ...

domingo, 22 de março de 2009

O herói e o histrião

Fadigado. Cá estou novamente em busca de mim mesmo. Soa tão clichê... Mas por que não ser clichê? Não se pode ser original, senão na mentira, ou então no erro.

Sou tantos e, no entanto, esgoto minha existência em busca de um “Eu” que faça de minhas memórias e expectativas algo palatável, suportável. Quero ser o herói de minha história. Quero salvar os bons e punir os maus. Mas sei que isso é mentira. Perpetrei o mal sobre bons, embora para mim eles tenham sido e sejam sempre maléficas criaturas. No fim, é sempre a memória que vence tais contendas. A culpa, por sua vez, desmonta qualquer heroísmo.

Fui bom quando quis ser mal, somente para ser apreciado. No entanto, não darei o braço a torcer, não quero ser o louco. O histrião, o esquizofrênico, o contraditório... Ninguém quer ser o “quadrofênico”, como naquele disco de 1973, um poço de contradições... Quero ser o “The real me”. Quero ser o herói da história. Mas é um erro, uma mentira, sou aquele que não é sempre o mesmo.

Sou o louco também. A loucura é a única válvula de escape diante de um mundo enlouquecedor de ciência, racionalidade e identidade. Tudo é tão asséptico, tão esterilizado. Acho que a pior loucura é acreditar ser cem por cento são. Maníacos que se apresentam cientes de si e do mundo, sem nunca extravasar suas inúmeras dúvidas, anseios e desejos. É frustrante... Como máquinas de impessoalidade, em sua imparcialidade dilaceram e trucidam os que passam a sua frente sem remorso. Erotomaníacos... amam até a morte. São loucos que nunca abraçaram sua insanidade. E como pode ser salutar encontrar a si mesmo diante das múltiplas faces que cotidianamente nos apresentam as contingências da existência humana... Que coabitam nosso "Ser".

Divago sobre coisas não lineares, existência e vida em outras galáxias. O sexo como fuga da realidade. E eis que me vejo diante dos quadros da escola primária. Observo meus pulsos cerrados, o sangue em minhas mãos... A cabeça aberta de um coleguinha que somente tinha seus erros consigo, nada mais. Mas era demais para mim. A diferença me levou ao homicídio. Seria essa a tal natureza humana? Seria isso? Seria esta tal natureza mais uma fuga? Na ânsia de esconder o que realmente somos, inventamos a filosofia e seus desvios retóricos. A filosofia como fuga. Sim, mais de 5 mil anos de fuga de nós mesmos. A memória que lança a culpa em Deus e não assume a responsabilidade pela violência perpetrada ao outro? A busca por um espelho na natureza, algo que nos insira no mundo, mas que ao fazê-lo nos exima de qualquer responsabilidade mundana? Nos dê uma casa no mesmo movimento em que nos dê sustento e a certeza de não sermos os responsáveis. O castelo ou o manicômio? Seria o castelo um manicômio ou o a casa de lunáticos nosso castelo?

Vejo-me correndo de alguém, pulo pela janela na noite... Não vôo. Instantes antes de morrer acordo. Seria um sonho? Vejo-me diante do espelho... A navalha em minha mão direita... Seria um filme? Um quarto de bordel. O cigarro queimando sozinho, mas não fumo. O gosto da bebida ainda em minha boca. A sensação de torpor. A sede. A prostituta ao meu lado pergunta se eu tenho dinheiro trocado e, de repente, tudo fica mais claro. E isso me seduz ao mesmo tempo em que me atemoriza.

A fuga permanece. Tenho de ser o herói de minha história? Tenho de ser o homem bom? O bom samaritano? Jamais um filisteu?

Tenho de levar a esperança onde só existe a dúvida. No entanto, sou tantos... sou uma legião de seres em conflito declarado. Sou o filisteu. E me odeio por isso. Sou meu pior inimigo, maior crítico e também maior fã. Sou meu herói e inimigo. Sou também louco. Odeio-me e odeio tudo o que é diferente.

Odiar? Que palavra forte. Só odeia quem também ama. Amo e odeio o paradoxo e a contradição. Tudo o que é uno e indivisível. Ser autorreferente tem suas conseqüências.

Nada me convence de que o erro é só o que temos. Entretanto, o erro é necessário. É o que me faz caminhar. Buscar a mim mesmo, ainda que chafurde no clichê. Procurar uma essência, a generalização da aparência, a “coisa em si”. Tenho, porém, a consciência do erro. E ser o histrião talvez me permita lidar com a contradição. Me pergunto se "Ser" louco, numa era de ciência e sanidade, não seria, também, uma forma de arte. E não seria a arte que tornaria a existência suportável? Que arte seria esta que me permite ser um a cada instante e tantos a todo momento?

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Guarita e Historiografia viva - Ivan Norberto dos Santos

Nota preliminar: a minha dedicatória, presente na nota preliminar de Graphic Novel, na qual Ivan Norberto foi citado, gerou duas reações, ambas por parte do nobre mestre. A primeira foi sua indignação pelo "apelido" de mestre. Apenas mais uma das muitas demonstrações de sua incurável modéstia e humildade. A segunda, decorrência da primeira e que nos interessa mais particularmente, vai a seguir. São dois belos textos, ambos da lavra particular de Ivan, que o autor gentilmente cedeu para que eu os publicasse aqui. Sinto-me profundamente honrado em adicioná-lo à minha pequena coleção de idéias uma vez que sua contribuição para meu ingresso nesse mundo é imensa. Faço votos para que a luz própria de seus escritos ilumine meus textos por outros ângulos. No mais, segue também a nota introdutória que, por insistência (e direito) do autor, eu adiciono para vossa fruição. Boa Leitura.

Nota do autor: ao contrário da Blanche DuBois, de Um bonde chamado desejo, que sempre contou com a bondade de estranhos, eu respiro pela generosidade dos meus amigos. Apesar disso, recuso gentilmente o generoso apelido que "Andrey"* me deu no Blog dias atrás; sou seu irmão, no mais pleno e favorável sentido dessa palavra. Envio dois poemas, que "Andrey" já conhece, de dois momentos e dois ofícios diferentes. Achei legal deixar as datas para dimensionar este que é um dos nossos atuais temas de reflexão: o tempo e sua passagem. Um forte abraço, Ivan Norberto dos Santos.

* [como Ivan me chama - Nota do editor.]


Guarita
(1984)

A madrugada fria
Do dia, estrada maldita,
É a entrada, a ponte, o rio
Pra outra estrada vazia.

Tudo transmite nada
Nessas paredes esguias,
Nessas torres de concreto,
Na guarda deste castelo.

No elo que une a Alvorada
Com o despertar para a Vida,
Nos nomes no baixo teto
A espiar minha cria:
A escrita que deixo impressa
No corpo dessa Guarita.

A minha dor inconfessa
E a desesperança muda
No silêncio matinal
Reencontrou-se com a Verdade.

E antes que eu me esqueça,
O sabre corre e desnuda
Nas paredes meu sinal:
Se não verdade, o Sentido:
Liberdade! Liberdade!

A madrugada fria
Do dia anuncia o início,
O final do meu suplício,
Poder deixar esta farda!

É a escrita que deixa impressa
A guarita nesse guarda.

Historiografia Viva
(2002)

A História
não dorme no passado:
ela dorme
aqui do lado enrolada
em jornais e papelão.

Ressona e treme
às vezes pelo frio,
tem fome
porém não está
morta:
a qualquer dia
ela bate
à tua porta.

No momento em que
te distraías
vasculhando
a peste antiga
elaborando
complexos
pensamentos
e compondo
palavras bonitas
sobre gente falecida,
ela arranhou
as janelas do teu carro.

A História com rosto
que pulsa como o sangue
que tem mãos e corpos
e que caminha.

Cuidado.

A História
se avizinha.